
“Não se trata da visão da “violência que ensina violência”, motivo de discussão recorrente, nunca terminada. Parece-me ainda mais importante questionar o interesse da criação de jogos, cada vez mais realistas, em que o utilizador é convidado a participar activamente em manifestações de teor altamente agressivo, destruindo, por vezes de forma sádica, outros seres, tantas vezes humanos (ou a sua representação). Ainda que eventualmente capazes de destrinçar o campo do real do campo do ficcional (do que ainda duvido) não me parece salutar, usando um termo algo anódino, que alguém se “entretenha” a decepar cabeças, expor entranhas, trespassar corações, enuclear olhos, etc., etc., etc. Não haverá consequências, sejam elas negativas ou positivas, admito?” António comentário ao post “Jogos electrónicos e Violência”.
“Se os responsáveis pela insurgência, maioritariamente sunita, iraquiana se dedicassem aos jogos ditos violentos em vez de se envolverem numa luta fratricida ainda muito boa gente no Iraque manteria a sua cabeça no devido lugar…” Migalha comentário ao mesmo post.
A questão da relação entre violência e jogos electrónicos é equivalente àquela que existe no cinema e na televisão com alguns contornos realmente diferentes. Os telejornais e os filmes série B estão cheios de junk action, os reality shows inundam-nos de misérias sociais, económicas e culturais em tempo real. Os morangos com açúcar são tão pobres em termos narrativos como qualquer narrativa bélica. Poucas vezes vejo esta telenovela para adolescentes mas o pouco que vi pareceu-me de uma violência ficcional extrema. A ficção, neste caso, é uma simulação da realidade do tipo imitação com a diferença que simula uma realidade infantilizada sem contornos, preto no branco. É curioso como aliás grande parte da crítica à violência nos videojogos surge precisamente deste quadrante dos media pois estão a perder quotas de mercado. Agora uma coisa que é realmente diferente nas propostas interactivas é a capacidade que estas pressupõem de AGIR sobre a violência. Nos videojogos eu adquiro competências periciais, ensaio e especializo-me a dar tiros. Este aspecto pode ser de facto transposto para a minha realidade, ou seja, a coordenação e o desenvolvimento que eu adquiro por via dos automatismos adquiridos através da simulação é real e está inscrita no meu corpo. No entanto, os jogadores que utilizam estas capacidades para agir na realidade não deixam se ser sujeitos perturbados e a perturbação não foi criada pelo “tabuleiro” de jogo, pelo filme ou pela série. O jogo apenas me ajuda a acertar o tiro mas o acto de disparar pressupõe outros impulsos. A linha de fronteira entre a realidade e o círculo mágico criado pela ficção (Salen & Zimmerman; 2004: 93-99) é, nos jogadores equilibrados, perfeitamente clara e delineada.
As brincadeiras de crianças foram desde sempre absolutamente sádicas e escatológicas e acho particularmente curiosa a acepção que fazemos da pureza infantil quando não há espaço em que a crueldade e o sadismo dê azo a tantas ficções. Agora uma coisa é curiosa é que quanto mais tradicional é uma sociedade mais os seus brinquedos e jogos imitam ocupações adultas. Inversamente quando mais moderna é a sociedade menor é o realismo dos seus jogos (Sutton-Smith; 1997: 155). Neste contexto, nas sociedades mais modernas os jogos deveriam ser mais simbólicos e abstractos. O problema é que a violência pode não ser associada com o realismo das imagens mas antes com o realismo da acção, o poder de agir. Assim, poderemos dizer que as comunidades de jogos podem não associar o realismo à representação escatológica (na vida real não é normal decepar cabeças e matar desenfreadamente qualquer indivíduo que me aparece à frente). A representação realista pode estar associada à reprodução da realidade (software para executar tarefas executivas, por exemplo, surge como muito mais realista do que o extermínio de monstros). A fantasmagoria parece ser, desde sempre, uma característica do homem e no imaginário da humanidade a presença de monstros e seres disformes é uma constante. É curioso como a representação realista não seduz os asiáticos e está tão bem instalada no ocidente. O que nos leva a questionar duas concepções totalmente díspares de um mesmo conceito. Averiguar o que entendemos por realismo é matéria para tese de doutoramento, hehehe,
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