INLAND EMPIRE DE DAVID LYNCH - ILHA DE GRAÇA_por Rafgouv


Para mim, David Lynch é o paradigma da generosidade cinematográfica. Os filmes de David Lynch não são só dele, são meus, teus, nossos. Não serve de nada por isso tentar explicá-los ou compreendê-los, devemos sobretudo estar prontos para co-realizarmos, com o que isso implica de disponibilidade, dedicação e coragem. Quem não está pronto para aceitar o convite, fica à porta do labirinto. Quem entra sabendo onde põe os pés, sabe que se vai perder mas sabe acima de tudo que nada se ganha sem perdição, sem divagação, sem incerteza. Mais do que um filme, INLAND EMPIRE é uma sessão de meditação transcendental. Como afirmava, numa entrevista recente, o escritor católico Maurice G. Dantec a propósito da literatura, “um livro que não é serenamente encarado pelo seu autor como um sacrifício, é uma anedota, uma baboseira.”

TERRITÓRIO INEXPLORADO: “Strange, what love does”
INLAND EMPIRE foi integralmente rodado em DV, em Hollywood e na Polónia. Segundo, Lynch trata-se de uma escolha definitiva na medida em que não conta voltar a rodar em suporte fílmico. A textura da imagem digital, o grão, lembra curiosamente o 35mm dos primórdios, antes que as sucessivas melhorias técnicas tenham dado à esmagadora maioria das produções cinematográficas o brilho liso das páginas de revista em “papier glacé” que, paradoxalmente, é também a nitidez do “pixel” (as grandes produções digitais tendem quase sempre – pensemos em Star Wars ou Lord of the Rings – a renegar o grão da imagem cinematográfica). Neste sentido, e apesar do trabalho sobre a textura, fílmica ou sonora, ser uma constante na obra de Lynch, INLAND EMPIRE é também um regresso às origens, à sujidade de Eraserhead e Elephant Man.
Quem aprecia sobretudo o virtuosismo arty do Lynch de Twin Peaks – Fire Walks With Me ou Lost Highway não deixará de ficar extremamente desapontado com INLAND EMPIRE. Neste novo Império [1], Lynch não abdica de forma alguma da pluridisciplinaridade que caracteriza a sua obra. INLAND EMPIRE é um filme mas também de algum modo uma instalação, um território arquitectónico labiríntico feito de circunvalações, corredores, subterrâneos. No entanto, em INLAND EMPIRE não há lugar para o glamour que de alguma maneira caracterizou também a sua obra de Wild at Heart a Mulholland Drive (expresso nomeadamente por referências constantes e emblemáticas ao cinema clássico de Hollywood, de The Wizard of Oz a Sunset Boulevard). Se bem que estes filmes (como de resto os seus referentes) fossem também desmistificações, podemos dizer que reafirmavam com pungência o poder mitológico da fábrica dos sonhos (os casais formados por Laura Dern e Nicolas Cage em Wild, por Patrícia Arquette e Bill Pullman em Lost ou por Rebecca Romijn-Stamos e Naomi Watts em Mulholland são reencarnações não estilizadas das estrelas do cinema clássico). Ora, se o cinema continua a ser um dos temas principais de INLAND EMPIRE (que aliás pode também ser visto como uma actualização ou um remake de Mulholland, nomeadamente pela reedição de um paradigmático beijo sáfico [2]), ao rodar uma boa parte do filme na Polónia (e em polaco), Lynch transfigura-se. Nalguns momentos, tive a nítida sensação de que o realizador de Dune se deixou possuir pelo Tarkovsky de Stalker. Ao investir, através de um túnel secreto, os antípodas do cinema de Hollywood, uma vez mais simbolizados [3] pela Europa de leste, o realizador desterra um terreno claro obscuro, feito de ruínas, feridas e humidade que não é menos um terreno de sonho. Diz Lynch a propósito da rodagem em DV: “É diferente. Alguns dirão que é feio. (…) Com uma imagem pobre [4] há muito mais espaço para sonharmos.”

LAURA/ NIKKI/ SUSAN…
Há algumas semanas, David Lynch, em mais um exemplo da sua extrema generosidade e do seu enorme sentido de humor, entrou em campanha. Com um amigo, uma vaca (“Sem queijo não haveria um INLAND EMPIRE…”) e um cartaz do filme foi para Hollywood Boulevard tentar convencer os membros da Academia de Artes e Ciências de Hollywood a nomearem Laura Dern para os Óscares. Sem resultado.
Confesso que não tenho palavras para escrever sobre Laura Dern. INLAND EMPIRE pertence-lhe tanto quanto a Lynch. Graças a ela, INLAND EMPIRE é um milagre, uma obra transcendente, um filme tão carnal quanto cerebral.

INLAND EMPIRE é um filme interminável [5] sobre um mundo crepuscular mas não desprovido de Graça. Não é uma obra-prima, é uma Obra Essencial como a canção de Nina Simone que o fecha – “Sinnerman”. Para todos nós!
[1] Ao mesmo tempo território cinematográfico e místico como a velha sala lisboeta do mesmo nome.[2] Não pretendo aqui desvendar os recantos deste filme-mundo.
[2] Não pretendo aqui desvendar os recantos deste filme-mundo
[3] Pode parecer paradoxal mas na verdade existem inúmeros pontos comuns entre INLAND EMPIRE e o interessantíssimo Borat que aqui tentei analisar há algumas semanas.
[4] E neste filme não é só a imagem mas também muitas vezes o que nela vemos que é pobre.
[5] Dura 3 horas mas durará toda a minha vida, ou seja, se tudo correr bem, eternamente.




























