“YVES KLEIN LA REVOLUTION BLEUE”_FRANÇOIS LÉVY-KUENTZ 07


Já vi o domentário Yves Klein La Revolution Bleue (François Lévy-Kuentz, 2007) há uns tempos mas recentemente andei a rever esta obra magnifica que conta a história de um dos artistas, quanto a mim, mais interessantes do século XX. As ficções happennings de Klein, juntamente com as acções de Joseph Beuys, são entusiasmantes pela sua componente narrativa mas também pela vontade de transformar a arte numa forma de vida. O facto de não se saber ao certo se a história da queda do avião onde Beyus seguia, na Crimeia, durante a Segunda Guerra Mundial, é verdade, faz dele um artista enigmático que usou, na sua obra, os materiais que, segundo reza esta versão possível dos acontecimentos reais, os tártaros usaram para lhe salvar a vida, feltro e gordura. Depois, Joseph Beuys deambula por tantos territórios, das letras, às artes visuais (escultura, vídeo, performance, instalação…), à culinária. Exímio cozinheiro, com receitas publicadas em livro, o artista alemão soube avant la lettre o efeito que a influência da arte oriental ia ter no ocidente, ou seja, que a arte se ia progressivamente tornando viva, i. e., cada vez mais preocupada com as questões do dia-a-dia. Contudo ainda hoje, por todos os lados, se insiste e se debatem partículas mortas e enterradas.


O documentário Yves Klein La Revolution Bleue, cheio de imagens da época e narrado na primeira pessoa, ou seja, através da voz do defunto Klein, qual Brás Kubas de Machado de Assis, vem chamar a atenção precisamente para a importância da vida do artista e como esta está intricadamente relacionada com a obra do mesmo. As acções de Klein são bastante conhecidas, performances poéticas à volta da utilização do corpo humano como pincel. É apenas de lamentar, porque é de facto surpreendente, mas ok, estávamos nos anos sessenta e a revolução sexual ainda era uma virtualidade só para alguns, diria o escritor japonês Haruki Murakami, que o artista só usasse mulheres, uma vez que a inspiração lhe surge numa viagem ao Japão quando visitou o país para fazer um exame de Judo. No Japão, Klein terá visto a criação deste tipo de telas a partir de pinceladas produzidas pela dança do corpo humano mas estas tiravam partido do corpo masculino e não do feminino. Como encenador da performance o artista francês dedica-se apenas à aplicação de corpos femininos tintados de azul sob fundos brancos. O efeito é surpreendente. Todas estas acções foram registadas em vídeo e aparecem no documentário acima mencionado.


A marca de azul que Klein criou, Blu(e) Klein, e a amizade com o escritor italiano Dino Buzzati mas também com Jean Cocteau, certamente que contribuíram para imbuir as obras do artista francês de um carácter sinergético bastante enigmático. Yves Klein fez do seu próprio casamento uma performance e teve o primeiro sintoma de ataque cardíaco quando foi ao festival de Cannes ver um filme sobre a sua obra que se revelou grotesco. O artista francês não resistiu ao choque e morreu pouco tempo depois com apenas 34 anos, depois de 7 anos de uma produção artística intensa. Yves Klein viveu toda a sua vida consciente da obra que deixava, é como se tivesse plena consciência que enquanto estivesse vivo estava a produzir obras que ficariam na memória e que perdurariam “para todo o sempre”. Para mim, assim como para Henry Jenkins neste texto, a arte que vale realmente a pena é aquela que está viva e Klein soube isso muito antes de se falar no assunto. O dia-a-dia com toda a sua fluidez, com todas as suas sinuosidades, é um território que vale a pena inquirir, para uma estética da vida, com Michel Maffesoli e Haruki Murakami. Este foi o ano em que também me apaixonei pela obra de Haruki Murakami. Neste documentário, sobre a vida e obra de Yves Klein, compreendemos a complexidade e viajamos com um dos cérebros mais prolíficos na criação de uma ficção da vida mas também sobre a vida.














