BOM ANO! BONNE ANNÉ! HAPPY NEW YEAR!



A mouselândia deseja a todos os seus leitores um EXCELENTE ANO DE 2010.



A mouselândia deseja a todos os seus leitores um EXCELENTE ANO DE 2010.


Nos últimos tempos vi alguns filmes em DVD. Filmes que por uma qualquer razão, normalmente associada à falta de tempo, infelizmente perdi no cinema. Public Enemies (Michael Mann, 2009) é uma obra curiosa, experimental q. b. e com uma estranha forma de iluminação. O filme conta a história do árduo duelo entre o assaltante de bancos, John Dillinger, interpretado por Johnny Depp, e o polícia que o quer prender, Melvin Purvis, aqui interpretado por Christian Bale, a acção passa-se nos anos trinta do século passado. Em paralelo ao duelo entre bandido e polícia vamos conhecendo a história que une afectivamente Dillinger à namorada e vendo alguns assaltos a bancos e festas. Esta obra tem uma atmosfera negra e sofisticada que reúne algumas cenas inesquecíveis, nomeadamente a cena de tiroteio no corredor de apartamentos, o momento em que Dillinger vê a namorada ser presa, a cena de captura à noite na floresta e a passagem do bandido pela esquadra, entre outras possíveis de enumerar. Um filme interessante.


The Wrestler (Darren Aronofsky, 2008) é um filme bastante triste em vários sentidos que me ensinou algumas coisas, i. e., que existem campeonatos combinados, assistidos por várias pessoas ao vivo e transmitidos na rede onde a decadência e o sangue são ainda estimulados, onde os cocktails de esteróides, a cocaína e o excesso de testosterona fazem sucesso, num circo de feras tribal em que as cicatrizes e os músculos imperam. Este filme ensinou-me que a decadência pode ter a forma de uns collants verdes de Lycra pontuados por uma cabeleira loira e que os actores fetiche da nossa adolescência se podem transformar em ícones grotescos. Randy é, neste filme, o Mickey Rourke que vai à cerimónia de Óscares com uma medalha em memória da sua falecida cadela mas está tão longe de Rumble Fish (1983) e de Nine 1/2 Weeks (1986) que até faz impressão e pelo caminho fez tanta porcaria que já não é surpresa nenhuma. Aqui faz um excelente papel, algures é como se falasse da sua própria decadência enquanto actor. Percebi em The Wrestler o revivalismo actual em relação aos anos oitenta do século passado que os meus alunos insistem em afirmar. Para Randy, os anos noventa não prestaram para nada, eram talvez demasiado fascinados pela Pop, coisa que eventualmente Randy despreza. Um filme tão duro que até dá dó. A cena da banca de livros onde os colegas de luta, todos lesionados e defeituosos, se encontram para autografarem cenas do sucesso de outros tempos é bem elucidativa desta dureza. A falhada aproximação da filha é outra possibilidade.


Finalmente, Shotgun Stories (Jeff Nichols, 2007) conta a história de três irmãos cuja vida é mais um passo na deambulação loser. O filme tem momentos muito bonitos do ponto de vista da composição visual, paisagens magníficas e apontamentos de campo que dificilmente se esquecem. Uma guerra familiar entre filhos legítimos e bastardos está no seio de toda a trama e de toda a violência. Os actores adicionam à atmosfera uma aura de mundo perdido onde sujeitos desfeitos se tentam recriar através da bebida, do jogo ou do amor. Uma impossibilidade pois é como se o destino destas criaturas errantes já estivesse traçado desde que nasceram, pela forma como foram instruídos, pela mãe, a odiar os “outros” meios-irmãos. Uma impossibilidade porque a violência transpira por cada poro e está um calor abrasivo. Um filme curioso.


Vi não há muito tempo a primeira temporada de Prison Break (Paul Scheuring / Fox, 2005_), uma série que me entusiasmou mas que segundo me dizem deixa de valer a pena na segunda temporada, com os protagonistas já fora da prisão. A saga de Michael Scofield (Wentworth Miller) para salvar o irmão da pena de morte é bem construída e tem alguns pormenores alucinantes em termos criativos, nomeadamente a forma como a tatuagem do corpo da personagem principal nos vai revelando o seu plano estratégico e a maneira como as várias personagens se interligam entre elas. Surgem também aspectos interessantes a partir da composição das relações sociais na prisão que se vão desvendando progressivamente. Os episódios da primeira temporada sustentam-se através dos diálogos e do enredo global feito de interacções entre prisioneiros. Não sei se vale mais do que isso mas apreciei a experiência.


Mais recentemente tive o prazer de ver, finalmente, a primeira temporada completa de Dexter (Showtime, 2006_) já aqui anteriormente apresentada por rafgouv. Uma série que nos faz vibrar, um mergulho às profundezas da mente de um criminoso e especialista em ciência forense, analista de “pegadas” e impressões de sangue, que conseguiu camuflar as suas tendências homicidas para uma cruzada contra criminosos mais abjectos. A verdade é que a série nos catapulta para um mundo em que somos tentados a apreciar as estratégias anómalas de Dexter o que nos deixa absolutamente baralhados com a experiência da mais pura ambiguidade. Tanto o protagonista, o “arranjadinho” David Fincher (Michael C. Hall) de Six Feet Under (HBO, 2001), como o artista das esculturas mórbidas, o maquiavélico Ice Truck Killer, são tão abjectos como sedutores, oscilam através de um universo pendular de repúdio e fascínio no qual a irmã de Dexter, Debra, nunca consegue penetrar. Uma série estranha onde o corpo fisiológico é reconstruído através dos movimentos lúdicos das personagens, numa dança de membros e fluidos que se transforma simultaneamente numa serenata romântica e num espaço de repúdio. Tudo na série é visualmente arrumadinho à superfície: o colarinho de Dexter, a casa dele, a esquadra da polícia, a namorada, a irmã, mas todos têm as entranhas reviradas (a namorada violada inúmeras vezes pelo ex-marido junkie, a irmã que não se consegue ligar…). Por fora tudo é funcional, por dentro tudo é disfuncional. A pouco e pouco vamos reconstituindo a história do protagonista e cruzando informações. A mais pura ambiguidade começa a tomar conta da cabeça do espectador. O DVD da série traz um documentário sobre a aplicação das técnicas usadas por Dexter na série mas desta vez na vida real. Este documentário explica como a ciência forense pode ser útil na reconstituição das eventuais cenas de crime. Para Dexter não é só necessário reconstituir as cenas de morte produzidas por outros mas também é fundamental trazer à superfície as cenas que o levaram a ser como é, simultaneamente um criminoso e um justiceiro. A não perder.


Por fim, “consumi” num fim-de-semana a quinta temporada completa de Lost (ABC, 2004_). Esta série é uma obra de uma enorme complexidade narrativa e cada nova temporada revela novas e intrincadas pistas. Se na primeira época salientei algumas suspeições (aqui) actualmente considero o conjunto das cinco edições insuperáveis em matéria de argumento, realização e direcção de actores. Mesmo quando Lost funciona como uma gigantesca telenovela revela detalhes de uma subtileza assinalável do ponto de vista da ficção de entretenimento. As personagens transformam-se conforme vamos progredindo na trama e o enredo é tão aditivo que não deixa margem para dúvidas: temos que seguir as deambulações pela ilha, conhecer os segredos de Jacob, Benjamim e de mais um punhado de gente que adopta nomes de filósofos. As personagens não sabem bem o que andam a fazer mas continuam porque no percurso é que está o segredo. A iniciativa Dharma, os “outros”, as oscilações no espaço-tempo que provocam clarões e pequenos tremores de terra mas também a mudança de época levam-nos para um mundo onde nada faz sentido mas ao mesmo tempo tudo faz sentido. Um caldeirão de coisas já implícitas nas outras temporadas surgem agora remisturadas e obrigam-nos a fazer um exercício de memória onde as ligações que se estabelecem dependem também da imaginação do espectador. Esta série prova claramente as teorias de Steven Johnson no livro Everything Bad Is Good for You: How Today’s Popular Culture is Actually Making Us Smarter, mesmo sendo este o livro mais fraco que li do autor. De acordo com Johnson, uma coisa é evidente as séries de televisão desta década sugerem leituras bem mais complexas do que aquelas que existiam nos anos setenta, pedindo ao leitor/espectador que descodifique tramas e participe na interpretação das obras de forma intertextual e aberta. O ARG do Lost anda aí e deve ser fascinante.


Decidi nos últimos dias do mês fazer alguns posts sobre o mês de Dezembro uma vez que me foi impossível manter este blogue actualizado. Depois de um período sem qualquer hipótese de ir ao cinema e ainda em fase de redacção de algum trabalho, finalmente, tive algum tempo para ver séries e filmes em DVD e na “tela” de cinema. Assim, aqui estou a sugerir algumas coisas para os meses de frio de Inverno onde sabe tão bem ficar em casa, quente e com uma chávena de chá. Ficam aqui, para já, algumas sugestões cinematográficas.
Fui ver Tetro de Francis F. Coppola, 2009. O filme tem um impacto bastante estranho e sinceramente acho que gostei mais dele quando sai da sala de cinema do que gosto neste momento. Um “texto” visual complexo e um espectáculo de narração sensorial por vezes com demasiado bom gosto. Talvez por isso mesmo tenha pensado que o queria ver outra vez logo, no final, quando acabei de visualizar a ficha técnica. A narrativa é sedutora e, como qualquer drama familiar, entranha-se facilmente e de maneira visceral no imaginário de cada um, numa mistura trágica mas também cómica. As cenas mais convincentes da desgraça dos dois irmãos surgem associadas a uma comédia que se vai desenrolando através de personagens tipo que se cruzam com os protagonistas: “o argentino de bigode com pretensões a italiano”; “a namorada e vizinha ciumenta e histérica (emocionalmente italiana? é conhecido o fascínio que os argentinos têm pelos seus antepassados europeus); a crítica de arte pretensiosa; o pai famoso, cruel e meio pedófilo; o artista gay vaidoso e também pretensioso; Enfim, um rol de figurantes que dão às personagens principais espaço para se tornarem também eles estereótipos: o génio sem sucesso, o irmão mais novo carente e a namorada/mãe. Tetro trata bastante mal Buenos Aires que surge como um lugar decrépito, o bairro a Boca é retratado como um beco sujo de artistas sem “arte”, frustrados e decadentes performers de cabaré. A luz do filme é magistral assim como as cenas da Patagónia, as coreografias e a cor… com detalhes de direcção de arte de arrepiar a epiderme como, por exemplo, as bolas da camisa de Bennie (Alden Ehrenreich) em contraste com as manchas rugosas e os graffitis da cidade, para citar apenas um pormenor que apreciei bastante. Tetro (Vincent Gallo) é, por vezes, um bocado irritante, tem um estilo maldito que roça o pedantismo e a idiotia. Por tudo isto gostei do filme e tenho mesmo a impressão de que aquilo que não gostei não podia ser de outra maneira. O olhar americano, algo superior, demasiado New York, demasiado cheio de bom gosto, mas também igualmente condescendente é acompanhado por uma magia sensual que interpela o espectador. Uma experiência estética demasiado recheada do ponto de vista visual.


Outro filme que me encantou foi o japonês Andando (Hirokazu Koreeda, 2008), uma história muito simples de uma tristeza assinalável que retrata, de forma universal, aquilo que acontece em muitas famílias. Dois filhos, uma mulher e um homem, visitam com as suas respectivas famílias actuais os pais que estão bastante envelhecidos. Em conjunto acabam por se confrontar uma vez mais com a perda, há quinze anos, de um terceiro irmão, facto que ao mesmo tempo vai desenrolando mágoas e pequenos rancores. A memória do falecido ofusca as acções dos filhos vivos mesmo que essas tenham sido efectuadas no passado. Tudo o que é bom pertence ao morto, filho varão. Tudo o que é mau está entre os vivos. A aceitação no seio da família da nora, divorciada e mãe de um rapaz, mulher do filho mais novo, surge carregada de uma enorme crueldade e é absolutamente fascinante como, mesmo num filme imerso na cultura japonesa e nas suas tradições, conseguimos mergulhar para qualquer drama familiar ocidental. Grande parte da acção do filme passa-se na cozinha, do sushi à tempura, directamente para o paladar, passando pelo cheiro. A cidade de Yokohama surge como um cantinho do Japão, verdejante e azul, com borboletas e espíritos malévolos. Que saudades da terra nipónica onde tudo é simultaneamente delicado e amargo.


Depois vi também o último filme de Spike Lee, Miracle at St. Anna, 2008, sobre a Segunda Grande Guerra e os seus efeitos. Um filme interessante mas que está longe da perícia habitual de Spike Lee, nomeadamente do fabuloso Inside Man de 2006 ou Summer of Sam de 1999, para citar apenas alguns filmes do mestre. A relação entre o soldado americano e o miúdo italiano são talvez das mais tocantes cenas do filme. O gigante de chocolate e as suas tropelias para resgatar a criança italiana leva-nos até ao massacre na igreja de St. Anna e aos horrores da guerra. Vale a pena ver mas não é um filme totalmente conseguido.


Vi ainda Moon (Duncan Jones, 2009), uma surpresa que não estava nada à espera. Sam Bell, Sam Rockwell, num papel extraordinário uma vez que este é essencialmente um filme de actor, trabalha na Lua, na base Sarang (que quer dizer amor em Coreano), das Indústrias Lunar. Sam dedica-se a acompanhar a maquinaria que faz a extracção de hélio-3 a partir do solo lunar para enviar energia (clean) para a Terra. A sua comissão é de três anos mas a personagem acaba enredada num conjunto de peripécias que convém não desvendar. O seu assistente robótico é GERTY que tem a voz cheia de charme de Kevin Spacey. Uma narrativa de ficção científica, criada pelo filho de David Bowie, Zowie Bowie, que me surpreendeu e que vou certamente voltar a ver em DVD pois gostava de me certificar de alguns detalhes que são difíceis de apreender em apenas uma visualização. Recomenda-se!
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Finalmente, fui ontem ver o tão esperado Avatar (James Cameron, 2009). Infelizmente não pude usufruir da experiência 3D uma vez que sou quase cega do olho direito mas, mesmo na versão 2D, recomendo o filme. Uma viagem interminável aos confins de Pandora com uma estética geek, muito inspirada nos jogos digitais, com detalhes visuais, por vezes, quase pirosos, mas muito bem feitos. Uma ficção narrativa que assenta no espectáculo sensorial e na acção para nos deliciar com um universo fantástico onde o “agente” infiltrado de raça humana, Jake Sully (Sam Worthington), um paraplégico veterano na Venezuela, começa progressivamente a ficar mais baço na vida real e cada vez mais luminoso na realidade alternativa, e. g., como avatar analógico/digital incorporado. Uma história onde os nativos ganham cada vez mais luz e os humanos vão obscurecendo pelas suas falácias tecnológicas. A mensagem ecologista new age é clara: a sociedade ocidental nada tem para oferecer aos nativos de Pandora. No planeta e na selva do clã Na’vi a vida está estruturada de forma holística sendo que o meio ambiente e os seres vivos estão em sintonia enquanto nós cortámos há muito o cordão umbilical com a nossa fonte de vida, o planeta, a terra. Uma mensagem que assenta na carne como fonte de ligação à natureza, onde o corpo humano está em sintonia com o ambiente no qual está inserido e que por isso mesmo supera dualidades forçadas. Narrativa biológica onde as belas espécies jurássicas e medonhas são convocadas para discorrer sobre a selecção natural. Neste contexto, são os mitos de superação do corpo humano que vêm derrubar as crenças holísticas e o estado de harmonia com a natureza no qual os elementos do clã Na’vi vivem. Jake Sully é aquele que incarna um corpo alternativo num abandono artificial do seu corpo real, deficiente e ineficaz. O simulador que lhe permite aceder a Pandora é tão mais real quanto mais miserável for a sua vida humana, sem pernas não pode correr, sentir as coisas nos pés, magoar a pele e verter sangue e outros fluidos.
A verdade é que o paradigma da realidade alternativa também se vai ajustando ao sabor do tempo e, neste caso, dá relevo à substituição de um corpo por outro através da simulação. Longe estão as ficções mais empolgadas de descarte da carne pelo espírito típicas da década passada. Longe está a ideologia de uma realidade sem agenciamento, sem narração, e novos conceitos vão desfilando em Avatar. Surpreendente é também a forma como se entranha a relação complexa entre colonizador (os americanos) e colonizado (a população da tribo) e, no final, do filme os “transformers” robóticos do ingénuo e bruto comandante parecem de facto tão ridículos que engolimos com estranheza a simplicidade da história. Tudo em Avatar é claro e directo, são as nossas ficções de superioridade que nos fazem cair nas armadilhas mais óbvias.
As cenas dos rituais tribais para salvar a cientista Grace Augustine (Sigourney Weaver) e Jake Sully são talvez excessivas e recordam tanto o filme Invasion of the Body Snatchers (Philip Kaufman, 1978) que, por coincidência, vi recentemente na televisão, como o terceiro Matrix. Estas cenas têm um toque visual e performativo excessivo que é, quanto a mim, desnecessário mas que deve fazer parte das coreografias orquestradas para audiências de massas. O mesmo se pode dizer da banda sonora do filme, uma lamechice que tem o seu apogeu no final e que recorda as baladas de Titanic. Longe do Terminator 2. Sou grande fã de James Cameron e estava com algum receio que desta vez o mestre tivesse caído na ratoeira da “tecnologia pela tecnologia” uma vez que o mito do 3D serve muitas vezes de pretexto para vender mais bilhetes mas fiquei totalmente convencida que James Cameron, à semelhança de Stanley Kubrick, filma pouco mas quando o faz… recomendo vivamente.