NUMA ESTRADA PARA LADO NENHUM…



Para fechar o cinzento mês de Janeiro nada como uma pequena ronda pelas estreias cinematográficas. A semana passada fui ver o tão esperado filme The Road (John Hillcoat, 2009) e a experiência valeu a pena embora seja imprescindível ler o livro de Cormac McCarthy primeiro. O filme funciona quase como uma ilustração “viva” da narrativa do livro e o cenário apocalíptico completa, de forma expressiva, as sensações duras do enredo que nos atira para um dia-a-dia de sobrevivência no qual um pai tenta, por todos os meios, prolongar a vida do filho. Uma caminhada sem fim para chegar ao sul sem sequer saber o que por lá se pode encontrar. A tonalidade acastanhada e sépia da imagem cinematográfica, misturada com um grão cinzento constante, levam-nos a sentir uma angústia permanente. As cinzas sufocam o espectador e o desconforto é total. No cenário actual, que nos remete para a tragédia do Haiti, este drama ainda é mais complicado de engolir. Qualquer analepse, onde vemos a bela Charlize Theron, no papel da mãe do rapaz, feliz num ambiente confortável e “normal”, pré catástrofe, com Viggo Mortensen, pai do miúdo, nos deixa absolutamente desconfortáveis, com um nó na garganta. Aquela realidade é demasiado cruel e o espectador não pode deixar de sentir uma propensão para optar por seguir os sensatos passos da figura feminina. No final, acho que só se consegue suspirar de tristeza. O filme, tal como antes o livro, leva-nos ao inferno. Curiosa é a cena na cascata onde o rapaz não pode acompanhar a nudez do pai, talvez devido à moral vigente, o que ainda causa maior perplexidade pois são os calções (cuecas) cozidos, para não lhe caírem pelas pernas, que nos recordam que estamos no inferno. A descoberta do abrigo, o banho com shampoo e a primeira coca-cola são momentos emocionalmente difíceis. Uma semana depois de ter visto o filme ainda sinto que reviver a história do livro, através das imagens, deixa qualquer um num estado no qual temos que respirar fundo para suportar o incómodo de pensar naquela situação.


Penso que se pode ver primeiro o filme pois este apresenta-nos uma versão fiel, mas light, do livro do grande escritor norte-americano. É uma inquietante peça de teatro que não pode deixar ninguém indiferente. O horror é omnipresente e dá-nos um panorama do ser humano em “regressão” para uma fase de quase selvagem, JJ Rousseau que me perdoe! Mais uma grande actuação de Viggo Mortensen.
Não pode ser regra pré-concebida que após se ver um filme seja difícil ler o livro no qual aquele se baseou, principalmente quando o/a cineasta deseja seguir o “espírito” da obra impressa. Lembro-me, por exemplo, que após ver o filme The Age of Innocence, Martin Scorsese, decidi ler o livro, de 1920, de Edith Wharton, essa referência da escrita norte americana do início do século passado, nem que seja pelo facto de ter sido a primeira mulher a ganhar um Pulitzer. E por isso só tenho a agradecer ao cineasta por me ter despertado para uma escritora que conhecia de nome mas que nunca tinha tido a curiosidade de ler. Em boa hora o fiz… Para apreciar melhor a subtileza da sua escrita, o seu fino sentido satírico dos usos e costumes da old New York City aconselho vivamente o The House of Mirth.