UMA HISTÓRIA DE AMOR ROMÂNTICO FEITA DE LETRAS E BORDADOS



O último filme de Jane Campion, Bright Star (2009), sobre três anos da vida do poeta John Keats, é algo desapontante embora se veja bastante bem. Fora o guarda-roupa que é soberbo, ou não fosse o próprio filme uma ode às rendas e aos bordados e ao papel que estes tinham na educação estética feminina da época, o desenrolar da história de amor entre Keats e Fanny Brawne (Abbie Cornish) é de um romantismo que roça a lamechice. Jane Campion sublinha, como sempre, a dificuldade da mulher afirmar o seu interesse estético, sempre depreciado e ridicularizado pelo universo masculino. Os bordados e a moda surgem como actividades fúteis e só o exercício de interpretação poética pode levar Fanny a conquistar e desafiar os senhores que a rodeiam, neste caso, Keats e Brown, que passam o dia à procura de inspiração. A forma como se acentua a importância de Fanny na obra de Keats é talvez o lado mais interessante deste filme pois sugere uma reflexão sobre a forma como os homens sempre minimizaram aspectos do universo feminino que não compreendem. O talento de Fanny desafia Brown e depois Keats.
Há, na obra de Campion, situações deliciosas, nomeadamente o passeio em que os dois amantes se divertem a fazer mímica para ocultar, à irmã mais nova de Fanny, os beijos e as carícias que trocam. Há momentos de uma doçura assinalável que a própria caracterização, que acentua, sem dúvida, a contemporaneidade dos cortes de cabelo, penteados e vestidos, realça. Os jantares familiares, as cenas de brincadeira no campo, um conjunto de encontros e desencontros fazem deste filme um documentário biográfico sobre os infortúnios de Keats: a necessidade de viver da caridade alheia, a falta de dinheiro para casar com a amada, a doença e morte do irmão e, finalmente, a sua própria doença e morte. Um enredo dramático que nos conta a história do poeta do século XIX, que morreu com apenas 25 anos de idade, de uma perspectiva intimista. A presença do benfeitor de Keats, Charles Armitage Brown, representado por Paul Schneider, é tão irritante que não dá para acreditar como é que é possível representar-se tão mal. Uma obra para ver em DVD.


Pena que - feminista?? - não tenhas nem por sombras avistado o cerne deste filme pura e profundamente erótico.
Devem ter sido a densidade das rendas, dos bordados e, claro está, da poesia, bem como o moralismo bacoco de quem pensa que o prazer é forçosamente carnal (e/ou genital) que impediram a abertura dos teus chakras. Um orgasmo quando 2 dedos se roçam???
Aconselha-se um estágio tântrico e o acesso a uma biblioteca libertina. E já agora um tratamento de reformatagem para esquecer os folhetos de profilaxia e planeamento familiar que confunde com literatura e cinema feministas.
Viva Jane Campion!!!
exactly, não percebeste patavina do que escrevi, não é grave, fico mais danado por não teres roçado patavina da brilhante estrela (inteligente e incandescente) de Keats/ Campion.
Digamos que o tal romantismo “que roça a lamechice” (notável adequação do verbo “roçar” que mostra que até sabes pescar) é o retrato de um amor louco e livre que despreza as barreiras culturais, sociais e económicas.
Quanto ao fundo “feminista” deste filme de câmara: joga-se no duelo entre Fanny e Mr Brown, entre a estilista e o intelectual apaixonados pelo poeta, entre a dedicação e o ciúme, entre a dádiva e a possessão, entre a oferenda e a chulice…
Que tenhas confundido o trabalho (meritório) do actor com o olhar (desprezante) da realizadora sobre a personagem de Brown puzzles me.
Exacto (excepto essa associação ridicula, perigosa e imprecisa entre homosexualidade e misoginia)!!! So é pena - muita pena - que não tenhas dito isto no primeiro texto!!! Até o pormenor da designer, estilista ou fachion victim omitiste em favor de considerações (também elas desprezantes!!!!) sobre rendas, bordados, lamechiches e télefilmes (”para ver em DVD”).
Como dizia a proposito deste filme AO Scott (NY Times), “modern audiences like nothing better than to be assured that our social order is freer and more enlightened than any that came before” e era essa mesma pretensão (quanto a mim) saloia que o teu (primeiro) texto reflectia. Ja agora deixa-me acabar a citaçãozinha do mesmo Scott:
“Bright Star” could easily have become a dark, simple fable of repression, since modern audiences like nothing better than to be assured that our social order is freer and more enlightened than any that came before. But Fanny and Keats are modern too, and though the mores of their time constrain them, they nonetheless regard themselves as free.
The film is hardly blind to the sexual hypocrisy that surrounds them. Fanny can’t marry Keats because of his poverty, but Brown blithely crosses class lines to have some fun with (and impregnate) a naïve and illiterate young household servant (Antonia Campbell-Hughes). That Fanny and Keats must sublimate their longings in letters, poems and conversations seems cruel, but they make the best of it. As does Ms. Campion: a sequence in which, fully clothed, the couple trades stanzas of “La Belle Dame Sans Merci” in a half-darkened bedroom must surely count as one of the hottest sex scenes in recent cinema.
The heat of that moment and others like it deliver “Bright Star” from the tidy prison of period costume drama. Ms. Campion, with her restless camera movements and off-center close-ups, films history in the present tense, and her wild vitality makes this movie romantic in every possible sense of the word.
que haja montes de homossexuais misóginos não me faz confusão nenhumissima, sobretudo as lésbicas, né???
Quanto a AO Scott ser ou não “moralista” não faço ideia pois não sei o que isso significa na tua boca (perdão, no teu punho: reaccionário? anti-modernices? pudibundo? pornografo? com valores?), se calhar até é capaz de ser gay mas sobretudo não me parece pateta (ao contrário também de “montes” de homossexuais de todissimos os sexos) e isso basta para merecer algum respeitinho das minhas partes.
:???::???::???: sem comentários, é estúpido. xxx mouse
Não percebo como um filme sem lampejo, tão cheio de banalidades, tão “mais do mesmo”, possa levantar tanta celeuma, e em relação a questões seguramente não equacionadas por Campion na sua obra. Não é filme para se ver em DVD pois, para mim, a sua principal, senão única, virtude é precisamente a atmosfera romântica, por mais piroso que isto possa soar, desde o guarda roupa à paisagem circundante, que precisa de uma grande tela para ser totalmente apreciada/apreendida. Concordo contigo mouse em relação à cabotinagem de Paul Schneider, nitidamente um erro de casting, que só desacredita a peça. Peça em torno de um romance de Keats cuja poesia li na adolescência e, confesso, sempre com um espírito tão cínico, talvez próprio da idade, que sempre desconsiderei a sua escrita.