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March 23rd, 2009

RAFAEL ARGULLOL_FCSH/UNL

Posted by mouseland in divulgação, cibercultura, enigmas

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Na quinta-feira passada fui ouvir Rafael Argullol à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Poeta e ensaísta é professor Catedrático de Estética e Teoria das Artes na Universidade de Humanidades Pompeu Fabra de Barcelona e já leccionou noutras universidades europeias e norte-americanas. Se a conferência me pareceu interessante na forma como interpretou a história de Édipo Rei na tragédia de Sófocles levando-nos a considerar a resolução do mistério como uma maneira de Édipo se ir reconciliando consigo próprio, tenho que confessar que já tinha ouvido uma interpretação muito semelhante por parte de Deolinda Santos Costa na Livraria Climepsi da Pinheiro Chagas. A forma como a psicanálise ajuda a desbloquear as memórias passadas e a preparar caminho para a aceitação da identidade de forma plástica e mutante era então matéria de discussão. Posso então considerar que nesse sentido a conferência de Rafael Argullol foi para mim uma revisão dessa outra comunicação mas no final o debate foi absolutamente surpreendente. 

O escritor espanhol contou uma história muito bonita sobre uma caminhada que fez com o pai para apanhar caracóis onde foi picado por uma abelha que antes tinha ajudado. Falou sobre a confusão que lhe fazia a partição entre teoria e prática, uma coisa impossível para os gregos, a partir das suas próprias experiências a leccionar nas Belas Artes e numa faculdade de Filosofia. Dissertou sobre a entropia das múltiplas perguntas e repostas e a necessidade de encontrar um equilíbrio entre as perguntas que se fazem, as respostas que se encontram e a acção. Anunciou a impossibilidade de separar o intelecto dos sentidos e admitiu a sua admiração por Platão por ter sido aquele que mais se equivocou. Criticou o panorama recorrente do mito de Duchamp nas artes contemporâneas denunciando o jogo existente entre a estética da contra corrente e a política actual, ou seja, admitindo que o mercado da arte está repleto de uma certa repetição silenciosa, parca de ideias realmente interessantes, na senda de Paul Virilio em La Procédure Silence. Anunciou o viajante como o único que sabe ler a sua própria cultura pois é através da cultura dos outros que melhor nos compreendemos. Alertou-nos para a sua convicção de que a tradução das palavras de Sócrates: “conhece-te a ti mesmo” estariam mal traduzidas e quereriam dizer algo como “reconcilia-te contigo próprio”, ou seja, não implicavam este voltar para dentro de si mas antes o encontro com os outros. Gostei muito de o ouvir até porque confirmou algumas das minhas convicções. Mais informações no blog de Rafael Argullol aqui.

February 16th, 2009

“DAS SOCIEDADES HUMANAS ÀS SOCIEDADES ARTIFICIAIS”_IST_09

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O segundo ciclo de conferências sobre a temática “Das Sociedades Humanas às Sociedades Artificiais”, organizado pelo Instituto de Sistemas e Robótica do Instituto Superior Técnico vai ter lugar entre 26 de Fevereiro e 26 de Março de 2009 e reparte-se por três sessões (26/2, 11/3 e 26/3). A ideia destes encontros é “estimular uma troca viva de pontos de vista entre diferentes conferencistas, comentadores e participantes em geral – reforçando assim um dos aspectos mais valiosos da primeira edição desta iniciativa. O programa propõe, num “esforço de fertilização cruzada e multidisciplinar”, inquirir aquilo que “Podemos designar por “ciências do artificial” aquelas teorias e práticas científicas que procuram realizar em máquinas concebidas ou construídas pelos humanos certos comportamentos ou capacidades que tenham sido definidas como objecto de atenção por terem sido consideradas típicas dos próprios humanos ou de outros animais que encontramos na natureza. Exemplos são o xadrez computacional ou, mais recentemente, o futebol robótico.

A Nova Robótica – em particular a Robótica Colectiva, que investiga as formas de estruturar múltiplos robots num mesmo cenário e de os controlar em vista à concretização de uma tarefa – representa um significativo avanço conceptual relativamente a três grandes esquecimentos da Inteligência Artificial clássica: supera o esquecimento do corpo, ao corporizar a inteligência em robots fisicamente realizados; supera o esquecimento do mundo, ao situar os robots em ambientes físicos em larga medida naturais; supera o esquecimento dos outros, ao colocar a inteligência no colectivo, como inteligência da interacção.” (Para mais informações consultar o endereço as conferências deste ano aqui e as do ano passado aqui). A não perder!

January 24th, 2009

PLAYABLE_NET-ART_ALTERNATIVE GAMES!

Posted by mouseland in mouse conf., cibercultura, game art

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Logo no início desta semana recebi a notícia. Seleccionaram o meu paper, “Action! Playable media and persistent games for the creation of on-line alternative realities and cross narratives (Cooperation versus Competition)”, para o encontro 3rd Inclusiva-net Meeting: NET.ART (SECOND EPOCH). The Evolution of Artistic Creation in the Net-system que vai decorrer no início de Março em Buenos Aires. O evento é organizado pelo Medialab Prado e terá lugar no Centro Cultural de Espanha na capital Argentina e o mais interessante é que o texto, que faz uma reflexão extensa sobre o meu actual foco de interesse, ou seja, os media “jogáveis” e a forma como se podem conceber sistemas on-line que estimulem, no seu game design, a cooperação e a competição, foi seleccionado entre quarenta. Depois da recensão da literatura e da apresentação de alguns projectos lúdicos que contextualizam o trabalho de investigação proposto apresenta-se o jogo Joga Outra Vez, criado em 2005 para e-mail, e que contou com a colaboração de aproximadamente 20 participantes; a instalação O Jogo ou Dilema do Prisioneiro, apresentado há aproximadamente um ano em Espanha no âmbito do Festival Interparla; e, finalmente, o blogue Mouseland. Depois da comunicação, onde tenho trinta minutos para expor as minhas ideias e mais 10 minutos para o debate subsequente, os textos vão ser publicados on-line no site do Medialab Prado. Aguardo o bilhete de avião a qualquer momento e, como é a segunda vez que irei a Buenos Aires, espero poder explorar lugares que da outra vez, algures no Verão de 2003, não tive oportunidade de conhecer. Mais informações aqui.

July 13th, 2008

DIGITAL GAMES 2008 + ARTECH 2008_JOGOS E ARTES DIGITAIS

Posted by mouseland in cibercultura, game art, indústria de jogos

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A conferência Digital Games 2008 deverá acontecer no dia 6 e 7 de Novembro de 2008 no Porto no âmbito do evento Artech 2008, 4th International Conference on Digital Arts, realizado pela Universidade Católica do Porto. Digital Games 2008 reunirá pessoas envolvidas na área dos jogos digitais em Portugal e está, neste momento, a aceitar trabalhos, papers e outras submissões que queiram propor. Digital Games 2008 é um evento organizado pela comunidade portuguesa de jogos digitais - Digital Games Group - sendo a primeira conferência de uma série, que se deverá passar a efectuar anualmente, e pretende ser um encontro para promover a investigação e a indústria de jogos digitais em Portugal. Conta, para isso, com a participação de investigadores e profissionais da área dos jogos e pretende ser um espaço de divulgação de trabalhos e troca de experiências entre as comunidades envolvidas na produção destes. Fui eu que fiz o design do logótipo pelo que podem opinar sobre ele à vontade. Para saber mais aqui.

O evento Artech 2008, 4th International Conference on Digital Arts é um encontro que tem como intuito promover o interesse pela cultura digital e estimular intersecções entre arte e tecnologia. Este projecto afirma-se como um suporte à investigação bem como um espaço de discussão e de troca de experiências na área das artes digitais. Para saber mais aqui.

July 6th, 2008

YOANI SÁNCHEZ VERSUS FIDEL CASTRO, O MACHO-VARÃO-MASCULINO!

Posted by mouseland in ciberfeminismo, cibercultura, segredos

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Embora tarde não posso deixar de fazer referência ao diferendo entre Yoani Sánchez e Fidel Castro. A autora do blogue Geração Y de 32 anos, que ganhou recentemente o Prémio Ortega y Gasset de jornalismo digital, viu-se impossibilitada pelas autoridades cubanas para ir a Madrid receber o mesmo. Fidel Castro mostrou-se incomodado com algumas declarações de Yoani Sánchez depois deste desagradável episódio e a filóloga de formação e professora de espanhol para estrangeiros, segundo a revista Veja de 28 de Maio, por sobrevivência, não se fez rogada em responder-lhe com acidez. A polémica está bastante bem explicada neste artigo, de 21 de Junho, do jornal El País. O que me pareceu delicioso foi a forma como Yoani Sánchez pediu ao marido, o jornalista Reinaldo Escobar, que respondesse, depois deste diferendo, a Fidel Castro com a seguinte argumentação: “Ao sentir-me atacada por alguém com um poder infinitamente superior ao meu, com mais do dobro da minha idade e ainda mais, como diriam as minhas vizinhas de infância, por um macho-varão-masculino, decidi que fosse o meu esposo (…) a responder”. E assim foi.

June 15th, 2008

MARK STEPHEN MEADOWS E A ECOLOGIA DAS EMOÇÕES ARTIFICIAIS

Posted by mouseland in cibercultura, enigmas

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Mark Stephen Meadows esteve em Lisboa o mês passado para uma conferência na Universidade Lusófona de Lisboa com o título “I avatar: who are we in the digital age”. O autor americano, que vive novamente em Paris e que já esteve em Lisboa em 2003 no âmbito da Experimentadesign, apresentou uma comunicação de aproximadamente uma hora seguida de debate. Nesta apresentação foram abordadas a história e a cultura do retrato para assim introduzir o software que desenvolve para a construção de personagens inteligentes. A tradição do retrato serviu a Mark Stephen Meadows para mergulhar o espectador na cultura digital e na produção de avatares em jogos como o Second Life. A comunicação centrou-se bastante no último livro do artista, I Avatar, the Culture & Consequence of Having a Second Life, e foi bastante estimulante na medida em que contextualizou a sua obra e ajudou a compreender como esta se revela bastante consistente na sua multiplicidade. Imagine-se a criação de um retrato a partir dos textos de um blog… Imagine-se a criação de um avatar a partir de cartas de uma pessoa morta… Psicologia e tecnologia podem transformar um artefacto mecânico numa representação com emoções? Sou muito céptica em relação às teorias da Inteligência Artificial mais centradas na consciência e associadas a relações desincorporadas do ambiente e tive oportunidade de discutir estas ideias com o autor. Nada conclusivo, claro está!

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A minha opinião está bastante formatada pelas teorias da Vida Artificial e da biologia de sistemas e afasta-se cada vez mais de aproximações mais top down, estas típicas das teorias da Inteligência Artificial. Veja-se, a título de exemplo, o texto que acompanha a conferência de amanhã no Instituto Superior Técnico: “Os projectos para criar “inteligência artificial” começaram por ser dominados pela ideia de que a inteligência está “dentro da cabeça” de um agente individual com capacidades superlativas de racionalidade calculadora. Isso equivale a três grandes esquecimentos da Inteligência Artificial clássica: o esquecimento do corpo, o esquecimento dos outros, o esquecimento do mundo. Esquecimento do corpo, porque sobrevaloriza o cérebro (artificial) como centro de comando, dando insuficiente atenção às dinâmicas corporais (percepção e acção, nomeadamente). Esquecimento dos outros, porque se concebe a inteligência em termos individuais (cada agente calcula isoladamente tudo o que há a fazer, com um investimento insuficiente na coordenação e mesmo cooperação com os demais agentes). Esquecimento do mundo, porque o agente é concebido para funcionar como se toda a inteligência estivesse nos próprios agentes, quando o nosso mundo (físico e social) tem vindo a ser estruturado ao logo de séculos por antecessores que o foram adaptando às necessidades e características da nossa espécie e ao nosso modo de vida, de tal modo que a sua organização e os instrumentos nele presentes contêm inteligência acumulada que deve ser tida em conta por agentes verdadeiramente inteligentes” (Silva, 2008). Mais informações aqui.

Infelizmente amanhã não vou poder ir à conferência Para uma Ecologia dos Ambientes Institucionais com o Professor Viriato Soromenho-Marques pois estou a dar aulas a essa hora mas dia 7 de Julho não vou faltar à última conferência do ciclo temático sobre a engenharia das sociedades humanas. As aulas já acabaram nessa altura. Gostava bastante de assistir à comunicação de amanhã uma vez que são assuntos que me interessam imenso pois esta aproximação cooperativa e emergente foi precisamente a que adoptei na minha tese de doutoramento que explora as teorias da Vida Artificial com possíveis aplicações às criaturas digitais no âmbito criativo.

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Voltando a Mark Stephen Meadows. Embora me custe a perceber algumas visões mais orientadas pela psicologia Mark é, quanto a mim, um dos autores mais diversificados e estimulantes da actualidade. Escreveu dois livros na área da narrativa interactiva e dos media participativos. É representado por galerias na Europa e nos Estados Unidos da América. Criou algumas empresas, nomeadamente a HeadCase Humanufacturing e em 2007 a Echo & Shadow, e ainda é conhecido pelas suas viagens e experiências como marinheiro. Neste caldeirão de actividades passa algum tempo a dar conferências e workshops e mantém o seu site actualizado. A comunicação do dia 30 de Maio ajudou a reconstruir um retrato ainda mais nítido das múltiplas personalidades de Meadows e como estas contribuem para uma obra muito coerente e experimental. Ali se demostrou como a actualidade segue uma longa tradição de representação e como essa mesma tendência está presente nas páginas de programas de edição como o myspace e na construção das diversas personagens que criamos para nos representarem no espaço digital. Mark Stephen Meadows tem planos para, no futuro, vir viver para Portugal. Por cá o esperamos. Até já.

June 14th, 2008

“A 11ª HORA”_ UM MOMENTO IMPRESSIONANTE

Posted by mouseland in cibercultura, enigmas, cinema

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O documentário A 11ª Hora, a hora mais obscura da humanidade num momento impressionante produzido e narrado por Leonardo Dicaprio é interessante na medida em que, depois de quase uma hora de testemunhos algo inquietantes e deprimentes, provenientes de especialistas de renome na área da física, biologia, ciência, design, religião, como Stephen Hawking, David Suzuki, Sylvia Earle, Stuart L. Pimm, Bruce Mau, entre outros, se dão algumas pistas como produzir projectos que tenham em conta um crescimento sustentado. O documentário foi buscar inspiração ao filme de Davis Guggenheim com Al Gore, “Uma Verdade Inconveniente”, cujo projecto ambiental é bastante considerado por Leonardo Dicaprio. Em A 11ª Hora introduz-se o espectador à problemática da degradação emergente do planeta Terra de uma forma combinatória através da perspectiva de vários especialistas de inúmeras áreas. Pela mão do actor americano as questões vão surgindo e os problemas associados com o enorme aumento da população no mundo vão sendo diagnosticados para depois se darem algumas pistas sobre o que individualmente podemos fazer para mudar o estado das coisas. 

O mais curioso deste documentário, para além das diversas opiniões apresentadas, é a forma como se propõe um modelo que tenha em consideração o design biológico das criaturas naturais no sentido de se tirarem algumas pistas para aplicação no design artificial de projectos sustentados do ponto de vista ecológico. Neste contexto, considera-se que observar a forma como a natureza constrói as suas criaturas “vivas” pode ser uma maneira eficiente de respeitar o mundo natural e viver em harmonia com este. Com uma mensagem que pode ser, por vezes, considerada próxima das perspectivas ambientalistas hippies e que poderia prescindir das imagens de casais ao pôr-do-sol, o filme mostra como essas ideias têm aplicação prática no design das tecnologias que criamos. Como diz Bruce Mau no seu site e que seria bem aplicado à mensagem de A 11ª Hora: “Não é apenas sobre o mundo do design é sobre o design do mundo” e assim se pode “usar o poder e a promessa do design para criar um futuro melhor para os nossos clientes, estúdios [ateliers ou escritórios] e planeta” in Bruce Mau Design.

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Podemos ainda considerar que este documentário apresenta uma visão neutra do ponto de vista político, sendo quase apolítico, embora coloque a globalização como o fenómeno responsável pela degradação exponencial do planeta. Adopta, no entanto, uma concepção algo misturada entre consumo para massas e globalização. Este aspecto é, a meu ver, o lado menos interessante e simplista do documentário pois acaba por misturar no mesmo saco o facto dos países mais desenvolvidos consumirem exageradamente, com uma mensagem muito centrada no caso americano, a páginas tantas critica-se o poder que os americanos têm para trabalhar para consumir, e a hipótese, quanto a mim inerente ao projecto da globalização, de sobrevivência nos países subdesenvolvidos e em vias de desenvolvimento. Mas também neste aspecto o filme acaba por alertar para a necessidade de olharmos mais para a realidade dos países pobres e adoptarmos um discurso que altere o paradigma da revolução industrial, que coloca a natureza como recurso infinito, para um paradigma sustentável de respeito pelas formas “vivas”.   

Neste documentário considera-se que o problema não é extinção do planeta azul, pois este tem todo o tempo do mundo, mas a extinção da espécie humana e de muitas outras espécies que não estão no topo da cadeia alimentar como o ser humano. Aprender a viver em harmonia com a natureza requer uma alteração profunda de algumas crenças e mitologias: a economia como crescimento infindável, o envelhecimento da população, o aumento da esperança de vida como dado adquirido, entre muitas outras pistas e possíveis deslocações de mentalidade. Uma reflexão sobre aquilo que, como indivíduos, podemos ir fazendo para ajudar a sigla verde.

May 19th, 2008

JUAN LUÍS CEBRIÁN E A CONCENTRAÇÃO DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO

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Na última quinta-feira, dia 15 de Maio, ouvi, na Universidade Lusófona de Lisboa, Juan Luís Cebrián, fundador do jornal El País e Vice-Presidente do Grupo Prisa (que detém a Media Capital, empresa dona da TVI). A conferência foi sobre o tema “A Economia dos Media em Portugal e Espanha Hoje” e abordou algumas questões relacionadas com a democracia participativa, gerada através dos media interactivos (blogues, jornais digitais e plataformas emergentes na rede) versus democracia representativa (jornalistas e mediadores culturais e políticos). Assim, Juan Luís Cebrián considerou bastante inquietante o desaparecimento dos mediadores pela imposição de uma cultura do “boato” e do tempo real “sem filtros”. A mudança do paradigma centralizado para um paradigma descentralizado participativo altera o espaço comunicacional gerando uma confusão entre publicidade e informação, verdade e mentira, facto e ficção. Segundo Cebrián, é necessário reinventar o papel do jornalista como “controlador”, mediador de conteúdos legitimados pela interpretação técnica da realidade, ou seja, pela validação das fontes e pelo registo rigoroso da matéria jornalística. Neste contexto, seria importante gerar uma política da validação dos conteúdos e não tanto centralizar os mesmos no chamado “jornalista-multimédia”, ou seja, aquele que escreve para vários suportes sem ter grande consciência do seu público-alvo. 

O fundador do jornal El País traçou um quadro curioso sobre a economia global alertando para a necessidade de Espanha pensar nos países da América do Sul, onde o grupo Prisa está bem implementado, e de Portugal pensar no enquadramento de países como o Brasil, Angola e outros falantes de língua portuguesa. A língua está no centro dos mercados globais e é essa audiência global que oferece “desafios formidáveis aos países menos poderosos, ou menos desenvolvidos”, frase citada no DN on-line de 16.05.08. Para o autor espanhol os problemas vão surgir essencialmente para os órgãos de comunicação demasiado grandes para ficarem estritamente num enquadramento local e ainda pequenos para se instalarem em termos globais. De acordo com Cebrián, os jornais serão um fenómeno do passado e se hoje fizesse o El País não seria em papel.

Juan Luís Cebrián fez uma curiosa crítica à separação recorrente na península ibérica entre as humanidades e tecnologias ou ciências experimentais e felicitou a Universidade Lusófona, de humanidades e tecnologias, pela criação de um lugar onde ambas as áreas convergem. A comunicação de Juan Luís Cebrián foi apresentada e comentada por António José Teixeira, Subdirector de Informação da SIC e Director da SIC Notícias e por José Bragança de Miranda, escritor, crítico e professor da Universidade Nova e Lusófona, ambas em Lisboa. Mais informações: aqui, aqui e aqui.

April 17th, 2008

AS ICONOLOGIAS DE MICHEL MAFFESOLI_por rafgouv

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O novo livro do sociólogo Michel Maffesoli – Iconologies – Nos idol@tries postmodernes (ed. Albin Michel, 2008) – é simultaneamente homenagem, actualização e comentário crítico das célebres Mitologias de Roland Barthes, compiladas em 1957. Tal como Barthes, Maffesoli parte da realidade tantas vezes desprezada dos ícones quotidianos para tentar desvendar aquilo que eles revelam e ao mesmo tempo escondem da nossa identidade contemporânea. No entanto, enquanto para Barthes o trabalho semiológico se assumia como “crítica ideológica” (cf. introdução à edição de 1970, Les Mythologies, ed. Points 1970), cuja ambição era desmistificar e demonstrar a carga alienante dos mitos capitalistas, para Maffesoli estes inserem-se numa perspectiva mais vasta e antropológica na medida em que iluminam, em todas as épocas, “o caminho individual ou colectivo que é a existência humana” (ed. cit. pg. 14). 

Para Maffesoli as transformações próprias à passagem do paradigma da modernidade à pós-modernidade chegam para justificar a necessidade de uma nova abordagem da mitologia: porque a pós-modernidade faz ressurgir antigos arquétipos (Dyonisos, o Graal…) que julgávamos definitivamente derrotados pelo progresso, porque “as jovens gerações já não são iconoclastas” (ed. cit. pg. 11) na medida em que vivem rodeadas de entidades imaginárias e simbólicas e porque “a partir do momento em que uma coisa é verdadeira para alguém, para um grupo, ou mesmo para uma sociedade, essa coisa existe e merece atenção” (idem). Ao passo que as doutrinas e ideologias da modernidade se caracterizavam por inscreverem a acção humana num esquema produtivista integralmente virado para o futuro (as promessas religiosas e políticas do paraíso post-mortem ou da sociedade em progresso com as respectivas, e por vezes mútuas, purgas), a pós-modernidade vem lembrar-nos que também o presente merece ser vivido. A tarefa do “iconólogo” é então a de navegar numa “via mediana, a da sabedoria” (ed. cit. pg. 12), sem pôr em causa a realidade simbólica nem cair na idolatria. Ou seja, ultrapassando os limites daquilo a que o autor de Le Temps des Tribus chama de “raison raisonnante”, razão racional mas sobretudo “razoável”, cujas análises quase sempre se paralisam e se neutralizam na antecâmara do emocional, do onírico, do imaginário, do gregário, do humano… 

Em 38 textos curtos, Maffesoli aborda ícones tão diversos quanto Harry Potter, Michel Houellebecq, as raves, o Brasil, Che Guevara, Google, as próteses high tech, Myspace, Second Life, Zidane a barba de 3 dias ou os trotskismos, para gradualmente compor o retrato de uma sociedade onde a tecnologia “transfigura” e reactualiza os arquétipos milenares, evacuando humildemente algumas monstruosas ideias feitas do “fast food teórico” (ed. cit. pg. 48) e/ou ideológico: como justificar por exemplo que se continue a dizer que vivemos no apogeu do individualismo quando o colectivo não cessa de se afirmar não só em manifestações políticas e religiosas mas também em concertos e estádios, festas e festivais, acontecimentos que cada vez mais consagram a vontade de partilhar, de estar juntos aqui e agora, independentemente de intenções ideológicas ou doutrinárias? Sem dúvida que os que criticam o tal pretenso individualismo se recusam a medir a realidade destes eventos porque neles só vêm frivolidade, superficialidade e “representação”. Além do fascínio evidente mas não cego, despertado pelos objectos da análise, a sensacional modéstia de Maffesoli dá azo a inesperadas e audaciosas aproximações (a moda baggy com os seus capuchos e a indumentária monástica, Second Life e o Mahabarata, Myspace e o Golem…), por vezes improváveis mas nunca gratuitas. 

Mais deixemo-nos de paráfrases. Isto é uma ordem: leiam e venham cá dizer o que acharam! 

P.S. E já agora leiam também outros livros de Maffesoli! Rafgouv

April 6th, 2008

NEUE HAAS GROTESK OU HELVETICA_ UM DOCUMENTÁRIO DE GARY HUSTWIT

Posted by mouseland in arte e design, cibercultura, enigmas

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Helvetica é um documentário bastante interessante realizado por Gary Hustwit para comemorar o cinquentenário (2007) da criação da Neue Haas Grotesk, ou seja, da fonte Helvetica. O filme é um documentário independente sobre “tipografia, design gráfico e cultura visual global”. Ali se introduz, com uma clareza assinalável, a história do “tipo” como parte integrante de uma vasta reflexão sobre a importância da tipografia na cultura visual contemporânea e a forma como esta afecta as nossas vidas. O espectador é convidado a viajar por um conjunto de cidades americanas e europeias para assim desvendar a iconografia urbana. Iconografia esta, muito dependente da utilização da fonte de origem Suiça introduzida por Max Miedinger e Eduard Hoffmann em 1957. Helvetia é o nome latino para Suiça.

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Em paralelo com o testemunho histórico de algumas pessoas envolvidas no processo de legitimação da Helvetica um conjunto vasto de designers desvendam as suas ideias sobre a utilização tipográfica do período modernista (Massimo Vignelli, Wim Crouwel, entre outros). No documentário este período é identificado com os anos sessenta do século XX onde se depara com a ascensão do design suíço em oposição ao regresso das fontes “serifadas” dos anos cinquenta do século passado. De seguida, vamos de encontro à estética “grunge” dos anos oitenta e noventa do século XX pela mão de Paula Scher, também em entrevista neste vídeo. Designer e sócia da Pentagram, Paula Scher, tem no documentário um contributo entusiasmante sobre a possibilidade de ilustrar através da tipografia e com algum humor identifica duas culturas de design na sociedade americana dos anos setenta do século passado. Assim, a autora comenta a existência, na época, de duas tendências, i. e., designers corporativos que davam ênfase à utilização da Neue Haas Grotesk e outros mais experimentais que começaram então a explorar novas formas de utilização dos caracteres. Neville Brody, Stefan Sagmeister e David Carson surgem como alguns dos proponentes da desconstrução dos “tipos” em pranchas mais anárquicas e expressivas que acima de tudo reflectem sobre a possibilidade de comunicar por vias menos transparentes e mais opacas.

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Já no final dos anos noventa do século XX e na presente década de início do século XXI o mundo do design, da publicidade, da psicologia e da comunicação global parece, sugerem alguns dos entrevistados neste documentário, preocupados em encontrar programas de representação e apropriação dos caracteres que exponham estratégias novamente mais racionais e reflexivas. O que se pretende parece ser encontrar soluções que vão de encontro a uma cultura cada vez mais global, em rede, com facilidade de acesso às tecnologias da informação e aos programas de manipulação visual. A complexidade inerente à simplificação do livro de regras numa sociedade em rede torna imperiosa uma cultura visual eficaz e emocionalmente rica. A Helvetica contem todo um programa de design que o vídeo de Gary Hustwit acaba por desvendar de forma muito eficiente. Imprescindível para qualquer pessoa que queira compreender o mundo e a cultura visual que nos rodeia.

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