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October 4th, 2009

“ESTADO DE GUERRA”_UM FILME SOBRE O IRAQUE QUE SE VAI TORNAR UM CLÁSSICO

Posted by mouseland in ciberfeminismo, cinema

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The Hurt Locker (Estado de Guerra, Kathryn Bigelow, 2008) é um excelente filme de acção realista que transporta o espectador directamente para as solas dos militares no caos da guerra do Iraque. Concordo com a hipótese de James Cameron a qual advoga que o filme se vai tornar num clássico de guerra (em entrevista aqui), como aconteceu com o filme Platoon (Oliver Stone, 1986) em relação ao conflito no Vietname. Kathryn Bigelow acompanha, através de câmaras ocultas no “cenário” criado, o movimento dos actores que representam uma equipa de militares de elite a trabalhar em Bagdad e arredores. Estes senhores da guerra trabalham em conjunto, num terreno cheio de ratoeiras e totalmente hostil, na tentativa de desactivarem algumas bombas e de evitarem encontros indesejados com milícias. Filmado no deserto, a cinco quilómetros da fronteira deste país, o filme apresenta de forma impiedosa este trabalho de desarmamento. As bombas podem estar em todo o lado a toda a hora. Cada objecto, cada corpo, cada pedra da calçada, pode ocultar uma explosão mortal e a adrenalina necessária para manter o serviço de desarmamento feito é uma experiência de fluxo (flow), i. e., alheamento total em que o corpo responde de forma mecânica, sem reflexão. O trabalho torna-se desta forma uma droga e o alívio para a brutalidade da profissão faz-se notar pelo medo de perder a coragem. Sem moralismos, puro e duro como já Strange Days (Kathryn Bigelow, 1995), escrito por James Cameron e realizado por Kathryn Bigelow, era. Nessa altura, Los Angeles no ano de 1999, estávamos, no entanto, no âmbito da ficção científica e da fantasia realista, um filme que nos transportava para a problemática do bug do milénio. Em The Hurt Locker, Mark Boal, jornalista profissional e argumentista deste filme, escreve o enredo a partir das suas próprias experiências ao lado de soldados americanos no Iraque, como aliás já tinha feito ao redigir o argumento de “No Vale de Elah” (Paul Haggis, 2007) aqui comentado por mim para o blog obvious, um olhar mais demorado. Um filme imperdível com uma realização brilhante de uma senhora de Hollywood que muito aprecio. Mais informações na entrevista com a cineasta aqui ou aqui.

October 4th, 2009

AS NOSTÁLGICAS PRAIAS DE AGNÈS VARDA

Posted by mouseland in ciberfeminismo, enigmas, cinema

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Les Plages d’Agnès Varda (Agnès Varda, 2008). O auto-retrato documentário de uma cineasta que se aproxima dos oitenta anos e que fala da sua infância, das suas experiências e paixões. As praias que marcaram a sua vida atravessam a memória de Agnès Varda que quis contar aos seus filhos e netos o seu passado, o tempo que viveu antes deles nascerem. Agnès Varda interpreta o papel de uma “pequena” velha que conta a sua vida e, no entanto, segundo afirma, são os outros que a interessam verdadeiramente e que gosta de filmar. Um filme nostálgico que nos mostra as bizarrias da fotógrafa, cineasta, viajante, curiosa, sempre à procura de qualquer coisa que a motive o suficiente para fazer um filme. Agnès Varda dá-nos, nas suas praias imensas, um pouco de outros filmes que realizou, as tropelias com os legumes de Les Glaneurs et La Glaneuse (2000) e Les Glaneurs et La Glaneuse… Deux ans aprés (2002), o andar à deriva de Sans toit ni loi (1985), L’univers de Jacques Demy (1995), entre outros. O momento no qual Agnès Varda fala da relação com o cineasta Jacques Demy e realça o facto de existirem casais que têm a sorte de viver a velhice juntos pareceu-me profundamente triste. Triste, mas não deprimente, nostálgico, como se Jacques Demy estivesse ainda tão vivo e passaram 19 anos desde que o cineasta francês morreu e Agnès Varda parece ainda estar a falar para ele. Contudo, aqui está um filme cheio de boa disposição, humor e muita criatividade. A fotografia, a pintura, a escultura, as encenações teatrais que envolvem entrevistas com um gato animado fazem-nos acreditar, em cada “poro” da pele da película, que a realizadora encontrou o seu “ponto zen”. O momento em a arte já não imita a vida mas toda a vida é arte. Mais informações na entrevista com a cineasta aqui ou uma curta apresentação do filme aqui.

January 12th, 2009

“HELD TOGETHER WITH WATER”_ INSTANBUL MODERN_NO FEMININO!

Posted by mouseland in ciberfeminismo, arte e design, viagens

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Fui visitar o Istanbul Modern e gostei imenso do espaço e da colecção agora apresentada, da companhia de energia austríaca Sammlung Verbund, com o título “Held Together with Water, Art from the Sammlung Verbund”. O museu tem um restaurante com uma localização privilegiada que dá acesso a uma varanda bem situada no “meio” do Bósforo e desde a sua abertura, em 2004, tem albergado inúmeras exposições e retrospectivas nacionais e internacionais, criando um espaço de apresentação de fotografia, design, vídeo arte, escultura, cinema e arte interdisciplinar. A colecção, iniciada no mesmo ano, é bastante boa e encoraja o diálogo entre as posições artísticas dos anos setenta do século XX e a contemporaneidade cobrindo quarenta anos de produção. Os visitantes encontram, num espírito feminista e pós-moderno, segundo o catálogo da mostra, uma relação entre algumas temáticas caras à década de setenta do século passado e autores mais jovens. Encontrei algumas surpresas como é o caso da artista austríaca Birgit Jurgenssen (1949-2003), com um trabalho bem interessante de manipulação performativa da imagem de si própria na senda de Cindy Sherman, da dupla turca Sener Özmen e Gengiz Tekin (1971/1977) que apresenta o vídeo “The Meeting or Bonjour Monsieur Courbel” de 2004 e, ainda, do belga, Francis Alÿs (1959), com uma hilariante instalação vídeo sobre os diferentes pontos de vista de um “peão” na rua que é interceptado por um cão que o faz escorregar e cair. Estes autores, surgem misturados com personagens consagradas e bem reconhecidas como Jeff Wall, Cindy Sherman, Francesca Woodman, Valie Export, Gordon Matta-Clark, entre outros.

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A exposição divide-se em duas orientações “The Performative” e “Spaces / Places” e é um espaço de reflexão sobre a falta de divulgação da arte do feminismo, no mesmo espírito da recente mostra da Vancouver Art Gallery, apresentada em Los Angeles em 2007, e aqui documentada recentemente neste blog. Um ensaio de Abigail Solomon-Godeau, “The Fine Art of Feminism”, presente no catálogo da exposição, é essencial para compreender a forma como a arte produzida por um grupo de mulheres, a maioria das vezes sem qualquer relação entre elas, se constitui como um corpo de trabalho que questiona o modelo Kantiano centrado em concepções de genialidade, masculinas e que adoptam a presunção de um sujeito universal. Diz-nos Solomon-Godeau: “It is frequently overlooked that feminist criticism, of all stripes, and feminist art, of all kinds, were allied with other critical artistic practices in the rejection of that tradition of Kantian philosophy that had constituted the bedrock of modernism aesthetics; namely the presumption of a universal subject (i. e., male, white), a disinterested and rational observer (e. g., idem), and the location of the art object within an autonomous realm of beauty, value and freedom. But in challenging the binaries of public/private, (as well, most famously, as that of the personal and the political) feminism further subverted the Kantian model by insisting on the contingency of the art object, its normative status as luxury commodity, its fetishistic components and functions, its agency in the reproduction of ideologies. In the place of formalist modernist ontology of art, feminist theories developed epistemologies; in the place of the sublimatory function of art, feminist proposed its de-sublimation, and the exposure of its constitutive repressions (Solomon-Godeau, 2008: 64)”.

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Com um texto que mostra de forma explícita as relações entre a arte da performance e a arte no feminino, Solomon-Godeau, explica bem como o mundo da arte, ainda muito pouco global nos anos oitenta, ignora algumas artistas que, no entanto, tiveram alguma projecção no início da sua carreira. A exposição mostra como algumas autoras se centraram nos novos meios e usaram a fotografia e o vídeo para ensaiar personas e papéis distintos, numa recriação do universo pessoal para exposição pública, numa evidente teatralidade efémera cujo registo em vídeo é o resultado final. Curioso é como esta mostra pode tão bem ser (re)contextualizada no sentido das artes digitais. O que se apresenta tem inúmeras relações com as novas práticas no âmbito das tribos da cultura digital, não só na construção de identidades fluidas a partir da rede como também na constituição de uma obra concebida com a participação do leitor/participante/jogador. O próprio catálogo da mostra já apresenta novos conceitos de interpretação destas obras. Conceitos estes, ancorados nas teorias da cultura digital e no papel fundamental da processualidade. É caso para se dizer que as artes tradicionais (fotografia, vídeo, cinema) estão finalmente a incorporar alguns discursos provenientes da estética e da experiência que apareceu com o digital. Não há experiência “binária” sem performatividade, sem jogo de pontos de vista, sem brincadeira. Não há experiência numérica sem um impulso evidente para a narrativa e o teatro. Ora, é precisamente esta deslocação que esta exposição vem reafirmar. No feminino.

December 1st, 2008

GUERRILLA GIRLS_REINVENTAR A PALAVRA “F” PARA FEMINISMO

Posted by mouseland in ciberfeminismo, viagens

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Descobri os livros das Guerrilla Girls na Vancouver Art Gallery e não posso evitar uma referência a este grupo que se bate pela divulgação de alguns números e estatísticas interessantes mostrando como a arte moderna, mas também a contemporânea, esteve e está imersa por uma cultura criada por e para os homens. O colectivo começou o seu trabalho em 1985 e tem sido persistente na sua estratégia de divulgação dos estereótipos recorrentes em relação às mulheres. No título Guerrilla Girls Greatest Hits (a poscard book, 1999) encontra-se, logo na capa, a seguinte frase: “less than 5% of the artists in the Modern Art sections are women, but 85% of the nudes are female”. E em relação ao ano de 1885/86 e às exposições individuais realizadas por mulheres em Nova Iorque? Guggenhein (0); Metropolitan (0), Modern (1) e Whitney (0). Ah! E na Europa, segundo o colectivo, o cenário era (é?) pior. Gostava de saber se ainda hoje estes números são assim tão desequilibrados… 

As Guerrilla Girls são um grupo de artistas, escritoras, performers e realizadoras de cinema que lutam contra a discriminação e vivem no anonimato usando para isso máscaras de gorila. As raparigas dedicam-se às mais variadas performances e declaram: “We declare ourselves feminist counterparts to the mostly male tradition of anonymous do-gooders like Robin Hood, Batman, and the Lone Ranger. We wear gorilla masks to focus on the issues rather than our personalities. We use humor to convey information, provoke discussion and show that feminists can be funny (…)” (Prefácio do conjunto de postais Guerrilla Girls Greatest Hits).

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No livro The Guerrilla Girls Art Museum Activity Book de 2004 afirmam: “Rich people have always had a lot of stuff. A few centuries ago, they ran out of room in their palaces and churches, so they started art museums. The Guerrilla Girls love museums and all the art in them, but we worry about them, too. Why do they raise hundreds of millions for new buildings, then complain that they don’t have enough money to buy art? Why do they blow a fortune on a single painting by a white male genius when they could acquire hundreds of great works by women and people of color instead? Why do museum store execs get paid more than curators?” Em Bitches, Bimbos, And Ballbreakers: The Guerrilla Girls’ Illustrated Guide to Female Stereotypes (Penguin, 2003) o colectivo leva-nos para um labirinto de estereótipos ficcionais e reais e mostra-nos como estes foram representados através dos séculos. Um conjunto de trabalhos que vale a pena explorar.

November 11th, 2008

“WACK! ART AND THE FEMINIST REVOLUTION”_VANCOUVER 08

Posted by mouseland in ciberfeminismo, exposições, viagens

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Uma ausência de quase um mês na actualização deste blogue não é desculpável mas a minha vida tem sido o caos completo. Cinco dias em Vancouver, ver aqui, dois dias no Porto, ver aqui e aqui, mais aulas pelo meio… algumas de compensação… e mais uma comunicação na próxima Sexta-feira no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, de destacar o programa on-line. Para quem não gosta nada de falar em público isto é caso para se dizer “dá deus nozes a quem não tem dentes” mas a vida tem destas contradições. 

Em Vancouver, entre simulações de 20 minutos em inglês para treinar a apresentação no ACM Multimedia, fui espreitar a excelente exposição WACK! Art and the Feminist Revolution, segundo o site da Vancouver Art Gallery: “o primeiro ensaio internacional que expõe de forma sistemática um conjunto de trabalhos que exploram as relações dinâmicas entre arte e feminismo no período que vai de 1965 a 1980”. Cento e vinte artistas com trabalhos patentes numa mostra organizada pelo Museu de Arte Contemporânea de Los Angeles agora disponível na Vancouver Art Gallery.

A exposição é muito interessante e está verdadeiramente bem estruturada em matéria de temáticas ou áreas de abordagem, passando pelas relações intrincadas entre a produção artística feminina e os discursos emergentes a partir dessa mesma produção. A construção de um corpo de trabalho no feminino é ali evidente e denuncia um conjunto de conceitos tratados de forma a expor os complicados papéis que a mulher, neste caso a artista, é convidada a explorar e a inquirir. A ênfase no corpo, nas tecnologias de lazer e/ou artesanais, a fabricação de sistemas de denuncia da constante depreciação do discurso construído por mulheres por parte dos homens, entre outros aspectos, como o público e o privado, a narrativa e a narração, fazem desta exposição e do seu catálogo um must. Se não fosse porque as mulheres têm de facto que se deixar ouvir não andava a pregar as minhas conversas nestes eventos todos! Hehehehe.

July 6th, 2008

YOANI SÁNCHEZ VERSUS FIDEL CASTRO, O MACHO-VARÃO-MASCULINO!

Posted by mouseland in ciberfeminismo, cibercultura, segredos

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Embora tarde não posso deixar de fazer referência ao diferendo entre Yoani Sánchez e Fidel Castro. A autora do blogue Geração Y de 32 anos, que ganhou recentemente o Prémio Ortega y Gasset de jornalismo digital, viu-se impossibilitada pelas autoridades cubanas para ir a Madrid receber o mesmo. Fidel Castro mostrou-se incomodado com algumas declarações de Yoani Sánchez depois deste desagradável episódio e a filóloga de formação e professora de espanhol para estrangeiros, segundo a revista Veja de 28 de Maio, por sobrevivência, não se fez rogada em responder-lhe com acidez. A polémica está bastante bem explicada neste artigo, de 21 de Junho, do jornal El País. O que me pareceu delicioso foi a forma como Yoani Sánchez pediu ao marido, o jornalista Reinaldo Escobar, que respondesse, depois deste diferendo, a Fidel Castro com a seguinte argumentação: “Ao sentir-me atacada por alguém com um poder infinitamente superior ao meu, com mais do dobro da minha idade e ainda mais, como diriam as minhas vizinhas de infância, por um macho-varão-masculino, decidi que fosse o meu esposo (…) a responder”. E assim foi.

May 9th, 2008

ELAS ANDAM AÍ_A MARGINALIZAÇÃO FEMININA NA CULTURA

Posted by mouseland in ciberfeminismo, enigmas

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O artigo de Laura Freixas, “La Marginación Femenina en la Cultura”, no jornal El País de Sábado, 3 de Maio, dá bem conta da falta de representação feminina na literatura e no cinema na Espanha do século XXI. O discurso vigente, patriarcal e condescendente em relação ao sexo feminino, já foi muitas vezes referido neste blog e é com agrado que encontro textos de outras mulheres que se queixam do mesmo problema em outros países. Ora, afirma Laura Freixas: “uma cultura que inviabiliza as mulheres - ou as ridiculariza ou trivializa as suas preocupações – não prejudica só as poetas ou as compositoras mas antes todo o sexo feminino. Quando os políticos se perguntam desesperados o que se pode fazer para reduzir a violência de género poder-se-ia sugerir que não vão só aos tribunais mas também ao cinema. Aí verão como as películas realizadas por homens – quase nunca acontece nos filmes dirigidos por mulheres – apresentam a violação e os maus-tratos com humor (Pilar Aguilar: Mujer, amor y sexo en el cine espanhol de los 90)”. Leia mais aqui.

No jornal New York Times outro artigo, publicado a 4 de Maio, por Manohla Dargis, “Is there a Real Woman in This Multiplex?” dá conta da actual representação feminina no cinema de Hollywood: “No ano passado, apenas 3 dos 20 principais lançamentos cinematográficos na América eram devotados ao sexo feminino. Destes três filmes, um envolve uma princesa (”Enchanted”) e dois tratam de aspectos relacionados com a gravidez (”Knocked Up” e “Juno”)”. Elucidativo não? Leia mais aqui.

February 21st, 2008

O CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE SIMONE DE BEAUVOIR

Posted by mouseland in ciberfeminismo

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Não podia deixar de fazer referência a um artigo de Inês Pedrosa publicado na revista Única do jornal Expresso de 26 de Janeiro de 2008. Eu sei que já foi há algum tempo mas continua a ser um excelente tópico de reflexão sobre a legitimação cultural das mulheres na Europa do Século XXI. Em “Simone e os Inquisidores” Inês Pedrosa afirma: “Simone de Beauvoir, la Scandaleuse”, foi o título que a revista francesa “Le Nouvel Observateur” escolheu para celebrar os cem anos de nascimento da autora de “O Segundo Sexo”. Para ilustrar o “escândalo”, escolheu uma fotografia de Simone nua, de costas, diante do espelho da casa de banho. O “Nouvel Obs” tem-se esforçado arduamente por ganhar o título de revista mais misógina da Europa: ainda no Verão passado, publicou um dossier intitulado “Os filósofos e as mulheres”, com uma fotografia de uma mulher de seios nus como ilustração de capa. Que não se considere um escândalo de analfabetismo que, 59 anos depois da publicação de “O Segundo Sexo”, ainda haja quem escreva que só com aspas se pode chamar filósofa a Beauvoir (quantos homens por este mundo são aclamados como filósofos – sem aspas – depois de meia dúzia de ensaios feitos de corta e cola?) apenas demonstra que esta obra fundadora desse capítulo central da Filosofia que é o Feminismo continua, infelizmente, avançada sobre o seu tempo: a mulher permanece ainda o Outro, o homem é ainda o Sujeito por excelência, a medida de todas as coisas: “O drama da mulher é esse conflito entre a reivindicação fundamental de todo o sujeito que se põe sempre como essencial e as exigências de uma situação que a constitui como inessencial.” (“O Segundo Sexo”, edição Círculo de Leitores, 1976).”

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Inês Pedrosa assinala em seguida a forma como o centenário do nascimento da autora francesa é mais uma oportunidade para se falar de Jean-Paul Sartre do que de Simone de Beauvoir, aspecto bem sintomático do lugar da mulher no século XXI, persistentemente como sombra de um homem… No centenário do nascimento de Jean-Paul Sartre a tónica do discurso foi na obra dele e não na obra da sua companheira. Também não publicaram um nu do filósofo francês como capa de jornal ou revista nem o consideraram escandaloso quando, ao que parece, seria um amante insaciável que acumulava amantes e crises. Ora, neste caso o mesmo não acontece, porque será? Neste contexto, a escritora portuguesa coloca a seguinte questão: “Existe paridade filosófica e ética na consideração de mulheres e homens?” Sabemos bem que inúmeras estatísticas mostram precisamente o contrário, pense-se, por exemplo, no escandaloso caso Italiano e Alemão para não mencionar o problema dos países sub-desenvolvidos e em vias de desenvolvimento. Ultimamente ao discurso cego da igualdade entre homens e mulheres deu lugar um discurso ancorado em evidências e números e a resposta paira: “as estatísticas mostram que não existe paridade nenhuma entre homens e mulheres mesmo nos países mais desenvolvidos”. Só as mulheres podem mudar esta situação denunciando o problema e trabalhando arduamente para mudar o actual estado-das-coisas. Em nome do esforço de Simone de Beauvoir nascida há cem anos no dia 9 de Janeiro de 1908.

November 8th, 2007

O JOGO DA VIDA_”BATTLE OF THE SEXES”

Posted by mouseland in ciberfeminismo, cibercultura, enigmas

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Para quem se interessa por questões de género (gender studies) passou há dias um documentário bastante interessante na RTP 2. No site do Battle of the Sexes (2002), que ao que parece tem duas partes, podem encontrar alguma informação sobre as diferenças do cromossoma Y e X: “‘Men are aggressive but women are diplomatic ‘Channel 4’s two-part series Battle of the Sexes reveals the biology behind the clichés. Here we delve further into the gender divide”. Na área gender lab no site do Channel 4 encontram um conjunto de publicações sobre estas questões e aparecem explicados sucintamente alguns testes efectuados. 

Não vi o documentário todo mas achei curiosíssima a forma como se explica como a biologia condiciona ambos os sexos. Sabiam que o feto do sexo masculino é mais frágil do que o feto do sexo feminino? Ao que parece as mulheres que geram um rapaz têm muito mais probabilidades de abortar. Sabiam que o cromossoma X é muito mais rico que o cromossoma Y? Não sabiam? Então consultem os textos disponíveis e se possível vejam o documentário. São apresentadas inúmeras experiências com crianças onde se revelam algumas diferenças expressivas nomeadamente a pouca capacidade feminina para desenhar de forma realista e compreender a mecânica dos objectos versus o domínio masculino nestas competências. Chama-se a atenção para o facto de estudos recentes revelarem uma maior apetência narrativa e social das raparigas. Parece que estas conseguem projectar melhor a sua intimidade na intimidade alheia ao contrário dos rapazes que têm maior dificuldade em perceber a complexidade do discurso feminino mas também de todos os outros seres humanos. Enfim, um documentário que questiona profundamente a dualidade entre factores biológicos e factores adquiridos em matéria de género. Advoga-se que estas separações são tão artificiais que promovem leituras equívocas sobre o que aproxima e distingue o homem da mulher. 

Uma coisa é certa o nosso corpo está envolvido no processo de adaptação ao mundo e é diferente apreender espacialmente o que nos rodeia incorporado num corpo de mulher ou num corpo de homem. A carne, a pele não é a mesma, os músculos são menos e a testosterona e os estrogénios jogam papéis específicos. Para quê negar que nascemos de facto diferentes e que afinal nem tudo é adquirido mas que os genes nos condicionam sobremaneira? Para quê negar que a biologia e os seus padrões nos impelem a funcionar de uma certa forma? É claro que no Game of Life as “leis” da cultura também jogam o seu papel mas a biologia é fundamental para percebermos para onde vamos e porque vamos.

October 9th, 2007

“2 DIAS EM PARIS”_CROMOSSOMAS E CULTURAS DISTINT(O)AS

Posted by mouseland in ciberfeminismo, cinema

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O filme de Julie Delpy, 2 dias em Paris, conta a história de um casal que vive nos EUA e que parte de férias para Veneza. Ela é francesa e fotógrafa, ele é americano e designer de interiores. No regresso da estada em terras italianas ficam dois dias em Paris onde tinham anteriormente depositado o gato do casal aos cuidados da família da protagonista. O namorado americano não conhece Paris e assim entre as deambulações pela cidade os dois vão descobrindo segredos, intimidades e mentiras. A actriz que já foi a Lise de Mauvais sang (1986) incarna o papel de uma mulher de 35 anos que mantém uma relação afectiva há dois anos depois de um conjunto alargado de desilusões amorosas.

As colagens com os filmes de Richard Linklater, Before Sunrise (1995) e Before Sunset (2004), são, quanto a mim, bastante superficiais. Por um lado, não aprecio os dois trabalhos de Richard Linklater e até os achei algo lamechas e simplórios. Ao contrário de alguns filmes do realizador que aprecio como, por exemplo, Waking Life (2001) e A Scanner Darkly (2006), achei o duo Jesse/Celine irritante. O romance adiado entre trintões, antes jovens, pareceu-me algo enfadonho e baseado num certo tipo de paixão romântica não consumada muito apropriada para os sucessos de bilheteira da actualidade. Por outro lado, achei este filme de Julie Delpy bastante referenciado ao género feminino, muito hilariante, realista e divertido. Um filme/discurso sobre o feminino e a necessidade de dar às mulheres uma voz na construção subjectiva da realidade. Uma ideia que penso que até pode ter surgido a partir do “díptico” de Richard Linklater e que nos remete para a diferença da noção de hábito e amor no género masculino e feminino. Numa cena de um dos dois filmes de Richard Linklater, Julie Delpy (Celine) diz que o que a faz sentir que ama uma pessoa é a capacidade que tem de antecipar, por via do hábito, os gestos do “outro”. Ora, Jesse logo lhe assegura que isso para ele é o mais evidente sinal de tédio. Cito a conversa de memória mas esse momento leva-me a considerar que é precisamente neste aspecto da intimidade, criada por via do hábito e da repetição, que 2 dias em Paris mergulha.

O filme faz parte de um discurso feminino sobre o amor e sobre a construção da intimidade a dois. O amor-paixão é preterido pelo amor-relação e o que está em causa é a capacidade que os dois têm para viver uma história de amor sem rupturas. O mito do amor-paixão é aqui questionado de forma realista: o tédio faz parte da relação de amor. O personagem masculino é um poço de “pequenos” problemas que no dia-a-dia massacram os tímpanos da namorada (sinusite, intestinos, fobias várias…). Ela está ali para conciliar, agir com diplomacia, agradar mas ao mesmo tempo fazer a sua vida sem prescindir dos seus interesses. O processo de adaptação de um género ao outro não é fácil e ambos acabam por se metamorfosear e ceder. Para ele, nunca nada está bem e existe uma tentativa clara de usurpar à namorada a sua única forma de discurso, a fotografia. É ele o autor das fotografias de viagem quando é ela a fotógrafa numa evidente tentativa de a silenciar. Para ela, o namorado não é suficientemente subtil para perceber a sua cultura e as suas divagações artísticas numa tentativa óbvia de menosprezo das faculdades do “outro”.

Os equívocos vão sendo acentuados por outra questão fulcral: a comunicação é difícil quando os elementos do casal pertencem a duas culturas distintas: a americana e a francesa. Numa relação de amor-ódio em relação à cultura do “outro” os aspectos culturais vão sendo trabalhados através de um conjunto de subtilezas que apontam para as evidentes diferenças de humor, de conceitos e de percepção da realidade nos dois países. Ainda estive mais atenta a estes factores porque acabei de ler recentemente um livro que explora e ironiza bastante a percepção que os americanos têm dos franceses e vice-versa. Refiro-me ao livro de Philip Roth, A Mancha Humana / The Human Stain (2000). A incomunicabilidade de certos gestos, expressões e formas de construir diálogos, a impossibilidade de “apanhar” a cultura do “outro” porque não se fala a sua língua torna inacessível a cultura francesa para o “americano em Paris”. Ela fala a língua dele mas ele não fala a língua dela. Esse factor afasta o casal pois se antes ela se adaptou à cultura dele agora ele é arisco em adaptar-se à dela. Querem melhor ironia sobre actualidade no que toca aos estudos de género?

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