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March 8th, 2010

“AN EDUCATION”_MARAVILHOSO!

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An Education da dinamarquesa Lone Scherfig (2009) é imperdível, dos melhores filmes que vi do ano passado e, juntamente com The Hurt Locker (Estado de Guerra, Kathryn Bigelow, 2008), faz parte dos meus favoritos para a noite de Óscares, a qual aguardo com ansiedade. Não estou a eleger ambos os filmes apenas por serem filmados por mulheres mas porque para mim foram realmente dos mais impressionantes registos da criação e produção cinematográfica recente. Ainda me falta ver O Laço Branco de Michael Haneke (2009) mas dos filmes que já vi estes são os eleitos.

An Education é um registo tocante sobre a adolescência, sobre escolhas de vida e sobre o charme (discreto) da burguesia. A desesperada tentativa de ascender a uma classe privilegiada é aqui motivo para uma educação em Oxford ou, em alternativa, para um casamento conveniente. A mulher do início dos anos sessenta, sem outra escolha, senão servir o homem, com ou sem inteligência. No filme nada é óbvio e o argumento de Nick Hornby é bastante subtil recordando, sem dúvida, a adaptação ao cinema do seu romance About a Boy (Chris Weitz, 2002). Os actores são excelentes e o enredo reserva algumas surpresas. O fascínio por Paris, pela cultura francesa, contrasta com a vida espartana que se vive em casa da protagonista. O estudo e os cigarros, a farda e os vestidos glamourosos, coexistem numa narrativa que nos faz pensar como é importante poder escolher. Os livros, os óculos de massa e as borbulhas podem concorrer com o hedonismo, com as festas e o álcool, mas também podem andar de mãos dadas pois, no final, o que conta são as lições de vida. Maravilhoso.

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March 7th, 2010

“WHATEVER WORKS”_HILARIANTE

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Whatever Works de Woody Allen surpreendeu-me bastante depois do, quanto a mim, desapontante Vicky, Cristina, Barcelona, de há dois anos. Este novo filme do realizador americano recordou-me Match Point (2005) e achei o humor negro, misturado com uma subtil crítica social, uma lufada de ar fresco. Whatever Works é divertido e inteligente, uma história simultaneamente provável e improvável. Uma rota de colisão entre personagens díspares: Boris Yelnikoff (Larry David), o génio da física, depressivo e com ataques de pânico; Melody (Evan Rachel Wood), a jovem do Mississípi que foge de casa dos pais para tentar a sua sorte em Nova Iorque; Marietta (Patricia Clarkson), a mãe da rapariga que sofre uma metamorfose hilariante e que se vê catapultada para a fama artística; John (Ed Begley Jr.), o pai de Melody que depois de uma aventura falhada com a melhor amiga da mulher decide “sair do armário”; Finalmente, os amigos, o bairro e os diversos momentos simples e cómicos que vão costurando uma trama onde todos andam à procura de alguma coisa, onde tudo é incerto e onde a trajectória, a acção, é o que interessa.

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A mistura de gerações e as relações pouco prováveis tornam-se prováveis pela necessidade, pela procura e pela curiosidade. Melody seduz Boris porque essa sedução lhe permite realizar um sonho, viver em Nova Iorque, sair da província e transformar-se. Ao aceitar a bondade da miúda, o cínico homem de meia-idade, entra também em rota de colisão para uma vida diferente. Boris aceita a generosidade de Melody porque essa generosidade lhe permite mudar de vida e transformar-se. Todas as personagens deste filme acabam por sofrer uma metamorfose e todas ganham alguma coisa pelo simples facto de Melody ter pedido ajuda a Boris. Porque Melody entrou em casa do físico que perdeu o prémio Nobel os clichés misturam-se com as frases caras e com as teorias quânticas e no processo a realidade de ambos muda. Um filme simples q. b. mas muito divertido. Porque será que Woddy Allen não perdoa aos artistas? A crítica às artes contemporâneas é, mais uma vez, à semelhança de Vicky, Cristina, Barcelona, feroz. Ainda bem que, no entanto, voltou aos retratos da cultura anglo-saxónica. A ver.

February 25th, 2010

MWSG_UMA FANTOCHADA ENGRAÇADITA

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Foi com alguma expectativa que fui ver The Men Who Stare at Goats (Grant Heslov, 2009) no fim-de-semana passado. No início há alguns gags com piada e a narrativa surrealista parece tomar contornos interessantes. No entanto, ao fim de algum tempo o argumento começa a parecer parvinho e tonto. A metamorfose de Bob Wilton (Ewan McGregor), de jornalista pacato a enviado especial à procura de uma notícia que lhe traga fama e sucesso, leva-nos até ao cenário da guerra do Iraque, às práticas new age no interior de um exército (New Earth Army) de guerreiros Jedis, liderado por Bill Django (Jeff Bridges num papel algo hilariante que lhe assenta bastante bem). Desta forma vamos acompanhando, pela estrada fora, todo um conjunto de estratagemas e peripécias que nos vão contando as várias experiências efectuadas por alguns elementos do exército da “Nova Terra” na tentativa de evitar usar armas de fogo num eventual conflito. O treino florido e os jogos bélicos mentais sucedem-se mas nem sempre com a mesma eficácia em matéria de comicidade.

A história é simples: Bob conhece Lyn Cassady (George Clooney) na fronteira com o Kuwait e ambos se aliam no sentido de fazer valer as suas teorias pacifistas que tiram partido de poderes paranormais onde podem atravessar paredes, aniquilar cabras ou ratos, encontrar pessoas desaparecidas, entre outras possibilidades. Em viagem pelo deserto, Lyn vai contando, em analepse, a Bob a evolução catastrófica do exército “mentalista” e alerta-o para a inveja maléfica de Larry Hooper (Kevin Spacey), um colega de Lyn e discípulo de Bill. Com tantos actores conhecidos e uma boa história seria de esperar mais. Nem a festa LSD, que culmina com a libertação das cabras, consegue salvar o filme.

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February 25th, 2010

“UM HOMEM SINGULAR”_PORQUE O AMOR NÃO ESTÁ NA MODA?

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O filme A Single Man do designer de moda americano Tom Ford (2009) revelou-se, para mim, uma enorme surpresa. A crítica é bastante boa mas não estava de todo à espera que o “texto” fosse tão ambiguamente tocante. Por vezes parece pretensioso, outras vezes, mágico. Pretensioso por causa da arquitectura, das roupas, dos ambientes e dos usos da época, tudo tão certo e aprumado que contrasta com a falta que tudo isso hoje nos faz. Mágico porque essa atmosfera sugere uma experiência estética muito ambígua e rica. No final, e sempre imerso nesta dualidade, o espectador acaba angustiado. Ou antes, eu enquanto espectadora acabei angustiada. A ordem e a arrumação espartana a que o sujeito se submete, a dificuldade com as primeiras horas da manhã e os diálogos interiores do protagonista fizeram-me mergulhar nos meus próprios pensamentos sobre a vida. Neste e noutros aspectos identifiquei-me com o professor Falconer. Uma das situações mais tocantes é o jantar em casa da amiga Charlie (Juliane Moore) quando ambos dançam, meio bêbados, e depois começam a encetar discussões para provar um ao outro que estão vivos. A satisfação e certeza do professor em relação ao passado, uma carreira que o satisfez e da qual não se envergonha (a alusão a uma possível ida para a Universidade de Stanford é disso um bom exemplo), uma relação que o preenchia plenamente e, finalmente, a morte que chega para lhe roubar tudo isso. Brutalmente e sem saída. O desespero de perder tudo de uma assentada, sem dó nem piedade. 

George Falconer ou, se quisermos, o Professor Falconer, numa excelente interpretação de Colin Firth, perde o amante de 16 anos num acidente de viação. No mesmo acidente perde ainda a vida dos dois cães do casal que vivia pacatamente numa estilizada e luxuosa casa de vidro em Los Angeles. Num ambiente que recorda imensamente a atmosfera da série de televisão Mad Men, aqui referida, cuja piscadela de olho não posso deixar de salientar quando se faz uma alusão aos publicitários de Madison Avenue. A série e o filme passam-se ambos no início dos anos sessenta e o ambiente nostálgico do passado é enaltecido por bonitos fatos, casas, carros, cigarros e muito glamour. O filme é baseado no livro do mesmo nome de Christopher Isherwood. A não perder!

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January 31st, 2010

“UP IN THE AIR” UMA COMÉDIA ESPECULATIVA

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Up in the Air (2009) é uma comédia divertida que vem provar o talento de Jason Reitman para um género simultaneamente acutilante e descontraído. O seu estilo surge, nesta obra, reforçado ao debater mais um assunto polémico da actualidade. No caso concreto deste filme, aborda-se o despedimento de trabalhadores e a contratação de especialistas que trazem as más notícias àqueles que vêem de um dia para o outro o seu emprego em causa. Já em Juno (aqui referido) a questão tratada era o problema da gravidez na adolescência e, em Obrigado por Fumar (também aqui referido), o confronto proposto remetia-nos para a paranóia em relação ao tabaco. Up in the Air junta e mistura várias questões numa reflexão critica em relação às opções de vida mais originais. Ryan Bingham (George Clooney) escolheu o movimento como forma de vida e passa os seus dias em aviões a andar de um lado para o outro, parar para ele é morrer. Sem qualquer moralismo, advoga-se um estilo de vida pelo qual se optou mas fica sempre a dúvida se terá sido uma opção ou uma adaptação. Impossível discernir, tanto no filme como na vida real, o que é fruto do livre arbítrio ou de adaptações autopoiéticas. A verdade é que o protagonista do filme parece satisfeito com a sua escolha e é apenas quando corre o risco de perder o seu estilo de vida que vacila em relação a todas as outras opções, i. e., prender-se, atracar-se, fechar-se, ficar amarrado a uma relação. Neste aspecto, o final desta obra é surpreendente mas também algo inconsistente mas não quero revelar pormenores.

Os momentos mais hilariantes deste filme são frescos e bastante divertidos, a conversa sobre o que as mulheres querem em diferentes alturas da vida, entre os três protagonistas do filme, é deliciosa. Apreciei bastante o conflito de gerações, as convicções de uma “miúda” de vinte e poucos anos confrontadas com o cinismo de um homem e de uma mulher já nos seus quarentas. A possibilidade de não se desejar seguir um caminho igual aos mais comuns e, acima de tudo, a ideia de que o respeito se vai perdendo na impessoalidade das relações mediadas por máquinas, sejam mensagens sms, vídeo-conferências ou e-mails. Uma comédia especulativa sobre as relações humanas numa época complexa.

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January 31st, 2010

UMA HISTÓRIA DE AMOR ROMÂNTICO FEITA DE LETRAS E BORDADOS

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O último filme de Jane Campion, Bright Star (2009), sobre três anos da vida do poeta John Keats, é algo desapontante embora se veja bastante bem. Fora o guarda-roupa que é soberbo, ou não fosse o próprio filme uma ode às rendas e aos bordados e ao papel que estes tinham na educação estética feminina da época, o desenrolar da história de amor entre Keats e Fanny Brawne (Abbie Cornish) é de um romantismo que roça a lamechice. Jane Campion sublinha, como sempre, a dificuldade da mulher afirmar o seu interesse estético, sempre depreciado e ridicularizado pelo universo masculino. Os bordados e a moda surgem como actividades fúteis e só o exercício de interpretação poética pode levar Fanny a conquistar e desafiar os senhores que a rodeiam, neste caso, Keats e Brown, que passam o dia à procura de inspiração. A forma como se acentua a importância de Fanny na obra de Keats é talvez o lado mais interessante deste filme pois sugere uma reflexão sobre a forma como os homens sempre minimizaram aspectos do universo feminino que não compreendem. O talento de Fanny desafia Brown e depois Keats.

Há, na obra de Campion, situações deliciosas, nomeadamente o passeio em que os dois amantes se divertem a fazer mímica para ocultar, à irmã mais nova de Fanny, os beijos e as carícias que trocam. Há momentos de uma doçura assinalável que a própria caracterização, que acentua, sem dúvida, a contemporaneidade dos cortes de cabelo, penteados e vestidos, realça. Os jantares familiares, as cenas de brincadeira no campo, um conjunto de encontros e desencontros fazem deste filme um documentário biográfico sobre os infortúnios de Keats: a necessidade de viver da caridade alheia, a falta de dinheiro para casar com a amada, a doença e morte do irmão e, finalmente, a sua própria doença e morte. Um enredo dramático que nos conta a história do poeta do século XIX, que morreu com apenas 25 anos de idade, de uma perspectiva intimista. A presença do benfeitor de Keats, Charles Armitage Brown, representado por Paul Schneider, é tão irritante que não dá para acreditar como é que é possível representar-se tão mal. Uma obra para ver em DVD.

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January 31st, 2010

NUMA ESTRADA PARA LADO NENHUM…

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Para fechar o cinzento mês de Janeiro nada como uma pequena ronda pelas estreias cinematográficas. A semana passada fui ver o tão esperado filme The Road (John Hillcoat, 2009) e a experiência valeu a pena embora seja imprescindível ler o livro de Cormac McCarthy primeiro. O filme funciona quase como uma ilustração “viva” da narrativa do livro e o cenário apocalíptico completa, de forma expressiva, as sensações duras do enredo que nos atira para um dia-a-dia de sobrevivência no qual um pai tenta, por todos os meios, prolongar a vida do filho. Uma caminhada sem fim para chegar ao sul sem sequer saber o que por lá se pode encontrar. A tonalidade acastanhada e sépia da imagem cinematográfica, misturada com um grão cinzento constante, levam-nos a sentir uma angústia permanente. As cinzas sufocam o espectador e o desconforto é total. No cenário actual, que nos remete para a tragédia do Haiti, este drama ainda é mais complicado de engolir. Qualquer analepse, onde vemos a bela Charlize Theron, no papel da mãe do rapaz, feliz num ambiente confortável e “normal”, pré catástrofe, com Viggo Mortensen, pai do miúdo, nos deixa absolutamente desconfortáveis, com um nó na garganta. Aquela realidade é demasiado cruel e o espectador não pode deixar de sentir uma propensão para optar por seguir os sensatos passos da figura feminina. No final, acho que só se consegue suspirar de tristeza. O filme, tal como antes o livro, leva-nos ao inferno. Curiosa é a cena na cascata onde o rapaz não pode acompanhar a nudez do pai, talvez devido à moral vigente, o que ainda causa maior perplexidade pois são os calções (cuecas) cozidos, para não lhe caírem pelas pernas, que nos recordam que estamos no inferno. A descoberta do abrigo, o banho com shampoo e a primeira coca-cola são momentos emocionalmente difíceis. Uma semana depois de ter visto o filme ainda sinto que reviver a história do livro, através das imagens, deixa qualquer um num estado no qual temos que respirar fundo para suportar o incómodo de pensar naquela situação.

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January 22nd, 2010

“HUNGER”, VISCERAL E ESCATOLÓGICO

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O início de Hunger de Steve McQueen, 2008, é totalmente inquietante. Da minha parte não deixei de ver o filme, logo nas primeiras cenas por um triz, mas a verdade é que a experiência, que no início é abjecta e sugere alguns vómitos, se revela difícil de esquecer no final. Dos vermes à luta política passando por um diálogo bastante curioso entre prisioneiro e padre. Penso que esta obra nos seus pormenores escatológicos e viscerais só podia sair das mãos de um artista plástico. Recordou-me as instalações e o cinema de Peter Greenway, outro realizador que, à semelhança de Steve McQueen, afirma o seu apreço pela Nouvelle Vague. Há em Hunger uma enorme plasticidade. Uma plasticidade visível em cada pústula da pele do condenado suicida, em cada reentrância da parede pintada com fezes, na pena leve, agora pesada, em contraste com o corpo do prisioneiro que vai desaparecendo devido à greve da fome. O filme passa-se numa prisão na Irlanda do norte, onde vários prisioneiros do IRA reivindicam estatuto político, e conta o triste destino de Robert Gerard Sands (Bobby Sands) que morreu com vinte e sete anos depois de sessenta e seis dias em greve da fome. Os dias na prisão são recheados por uma luta constante com os agentes policiais e a guerra dos prisioneiros vai-se revelando através do aspecto imundo das celas, da morte de alguns polícias no exterior da prisão e, nas cenas mais nojentas, pelo mijo jorrado pelos corredores e pelas mantas, a servir de roupas, cheias de vermes. Os presos são cabeludos e usam os seus dejectos para lutar contra a autoridade que lhes não reconhece o estatuto político. Os polícias estão asseados, atiram detergente aos corredores imundos da prisão e limpam à mangueirada o ambiente, quando não batem nos prisioneiros à matraca. Cada grupo joga o seu papel. Vários dias depois ainda sinto a espinha arrepiada ao ver as imagens do filme.

December 31st, 2009

DEZEMBRO EM DVD_2009

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Nos últimos tempos vi alguns filmes em DVD. Filmes que por uma qualquer razão, normalmente associada à falta de tempo, infelizmente perdi no cinema. Public Enemies (Michael Mann, 2009) é uma obra curiosa, experimental q. b. e com uma estranha forma de iluminação. O filme conta a história do árduo duelo entre o assaltante de bancos, John Dillinger, interpretado por Johnny Depp, e o polícia que o quer prender, Melvin Purvis, aqui interpretado por Christian Bale, a acção passa-se nos anos trinta do século passado. Em paralelo ao duelo entre bandido e polícia vamos conhecendo a história que une afectivamente Dillinger à namorada e vendo alguns assaltos a bancos e festas. Esta obra tem uma atmosfera negra e sofisticada que reúne algumas cenas inesquecíveis, nomeadamente a cena de tiroteio no corredor de apartamentos, o momento em que Dillinger vê a namorada ser presa, a cena de captura à noite na floresta e a passagem do bandido pela esquadra, entre outras possíveis de enumerar. Um filme interessante.

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The Wrestler (Darren Aronofsky, 2008) é um filme bastante triste em vários sentidos que me ensinou algumas coisas, i. e., que existem campeonatos combinados, assistidos por várias pessoas ao vivo e transmitidos na rede onde a decadência e o sangue são ainda estimulados, onde os cocktails de esteróides, a cocaína e o excesso de testosterona fazem sucesso, num circo de feras tribal em que as cicatrizes e os músculos imperam. Este filme ensinou-me que a decadência pode ter a forma de uns collants verdes de Lycra pontuados por uma cabeleira loira e que os actores fetiche da nossa adolescência se podem transformar em ícones grotescos. Randy é, neste filme, o Mickey Rourke que vai à cerimónia de Óscares com uma medalha em memória da sua falecida cadela mas está tão longe de Rumble Fish (1983) e de Nine 1/2 Weeks (1986) que até faz impressão e pelo caminho fez tanta porcaria que já não é surpresa nenhuma. Aqui faz um excelente papel, algures é como se falasse da sua própria decadência enquanto actor. Percebi em The Wrestler o revivalismo actual em relação aos anos oitenta do século passado que os meus alunos insistem em afirmar. Para Randy, os anos noventa não prestaram para nada, eram talvez demasiado fascinados pela Pop, coisa que eventualmente Randy despreza. Um filme tão duro que até dá dó. A cena da banca de livros onde os colegas de luta, todos lesionados e defeituosos, se encontram para autografarem cenas do sucesso de outros tempos é bem elucidativa desta dureza. A falhada aproximação da filha é outra possibilidade.

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Finalmente, Shotgun Stories (Jeff Nichols, 2007) conta a história de três irmãos cuja vida é mais um passo na deambulação loser. O filme tem momentos muito bonitos do ponto de vista da composição visual, paisagens magníficas e apontamentos de campo que dificilmente se esquecem. Uma guerra familiar entre filhos legítimos e bastardos está no seio de toda a trama e de toda a violência. Os actores adicionam à atmosfera uma aura de mundo perdido onde sujeitos desfeitos se tentam recriar através da bebida, do jogo ou do amor. Uma impossibilidade pois é como se o destino destas criaturas errantes já estivesse traçado desde que nasceram, pela forma como foram instruídos, pela mãe, a odiar os “outros” meios-irmãos. Uma impossibilidade porque a violência transpira por cada poro e está um calor abrasivo. Um filme curioso.

December 30th, 2009

DEZEMBRO NO CINEMA_2009

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Decidi nos últimos dias do mês fazer alguns posts sobre o mês de Dezembro uma vez que me foi impossível manter este blogue actualizado. Depois de um período sem qualquer hipótese de ir ao cinema e ainda em fase de redacção de algum trabalho, finalmente, tive algum tempo para ver séries e filmes em DVD e na “tela” de cinema. Assim, aqui estou a sugerir algumas coisas para os meses de frio de Inverno onde sabe tão bem ficar em casa, quente e com uma chávena de chá. Ficam aqui, para já, algumas sugestões cinematográficas.

Fui ver Tetro de Francis F. Coppola, 2009. O filme tem um impacto bastante estranho e sinceramente acho que gostei mais dele quando sai da sala de cinema do que gosto neste momento. Um “texto” visual complexo e um espectáculo de narração sensorial por vezes com demasiado bom gosto. Talvez por isso mesmo tenha pensado que o queria ver outra vez logo, no final, quando acabei de visualizar a ficha técnica. A narrativa é sedutora e, como qualquer drama familiar, entranha-se facilmente e de maneira visceral no imaginário de cada um, numa mistura trágica mas também cómica. As cenas mais convincentes da desgraça dos dois irmãos surgem associadas a uma comédia que se vai desenrolando através de personagens tipo que se cruzam com os protagonistas: “o argentino de bigode com pretensões a italiano”; “a namorada e vizinha ciumenta e histérica (emocionalmente italiana? é conhecido o fascínio que os argentinos têm pelos seus antepassados europeus); a crítica de arte pretensiosa; o pai famoso, cruel e meio pedófilo; o artista gay vaidoso e também pretensioso; Enfim, um rol de figurantes que dão às personagens principais espaço para se tornarem também eles estereótipos: o génio sem sucesso, o irmão mais novo carente e a namorada/mãe. Tetro trata bastante mal Buenos Aires que surge como um lugar decrépito, o bairro a Boca é retratado como um beco sujo de artistas sem “arte”, frustrados e decadentes performers de cabaré. A luz do filme é magistral assim como as cenas da Patagónia, as coreografias e a cor… com detalhes de direcção de arte de arrepiar a epiderme como, por exemplo, as bolas da camisa de Bennie (Alden Ehrenreich) em contraste com as manchas rugosas e os graffitis da cidade, para citar apenas um pormenor que apreciei bastante. Tetro (Vincent Gallo) é, por vezes, um bocado irritante, tem um estilo maldito que roça o pedantismo e a idiotia. Por tudo isto gostei do filme e tenho mesmo a impressão de que aquilo que não gostei não podia ser de outra maneira. O olhar americano, algo superior, demasiado New York, demasiado cheio de bom gosto, mas também igualmente condescendente é acompanhado por uma magia sensual que interpela o espectador. Uma experiência estética demasiado recheada do ponto de vista visual.

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Outro filme que me encantou foi o japonês Andando (Hirokazu Koreeda, 2008), uma história muito simples de uma tristeza assinalável que retrata, de forma universal, aquilo que acontece em muitas famílias. Dois filhos, uma mulher e um homem, visitam com as suas respectivas famílias actuais os pais que estão bastante envelhecidos. Em conjunto acabam por se confrontar uma vez mais com a perda, há quinze anos, de um terceiro irmão, facto que ao mesmo tempo vai desenrolando mágoas e pequenos rancores. A memória do falecido ofusca as acções dos filhos vivos mesmo que essas tenham sido efectuadas no passado. Tudo o que é bom pertence ao morto, filho varão. Tudo o que é mau está entre os vivos. A aceitação no seio da família da nora, divorciada e mãe de um rapaz, mulher do filho mais novo, surge carregada de uma enorme crueldade e é absolutamente fascinante como, mesmo num filme imerso na cultura japonesa e nas suas tradições, conseguimos mergulhar para qualquer drama familiar ocidental. Grande parte da acção do filme passa-se na cozinha, do sushi à tempura, directamente para o paladar, passando pelo cheiro. A cidade de Yokohama surge como um cantinho do Japão, verdejante e azul, com borboletas e espíritos malévolos. Que saudades da terra nipónica onde tudo é simultaneamente delicado e amargo.

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Depois vi também o último filme de Spike Lee, Miracle at St. Anna, 2008, sobre a Segunda Grande Guerra e os seus efeitos. Um filme interessante mas que está longe da perícia habitual de Spike Lee, nomeadamente do fabuloso Inside Man de 2006 ou Summer of Sam de 1999, para citar apenas alguns filmes do mestre. A relação entre o soldado americano e o miúdo italiano são talvez das mais tocantes cenas do filme. O gigante de chocolate e as suas tropelias para resgatar a criança italiana leva-nos até ao massacre na igreja de St. Anna e aos horrores da guerra. Vale a pena ver mas não é um filme totalmente conseguido.

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Vi ainda Moon (Duncan Jones, 2009), uma surpresa que não estava nada à espera. Sam Bell, Sam Rockwell, num papel extraordinário uma vez que este é essencialmente um filme de actor, trabalha na Lua, na base Sarang (que quer dizer amor em Coreano), das Indústrias Lunar. Sam dedica-se a acompanhar a maquinaria que faz a extracção de hélio-3 a partir do solo lunar para enviar energia (clean) para a Terra. A sua comissão é de três anos mas a personagem acaba enredada num conjunto de peripécias que convém não desvendar. O seu assistente robótico é GERTY que tem a voz cheia de charme de Kevin Spacey. Uma narrativa de ficção científica, criada pelo filho de David Bowie, Zowie Bowie, que me surpreendeu e que vou certamente voltar a ver em DVD pois gostava de me certificar de alguns detalhes que são difíceis de apreender em apenas uma visualização. Recomenda-se!

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Finalmente, fui ontem ver o tão esperado Avatar (James Cameron, 2009). Infelizmente não pude usufruir da experiência 3D uma vez que sou quase cega do olho direito mas, mesmo na versão 2D, recomendo o filme. Uma viagem interminável aos confins de Pandora com uma estética geek, muito inspirada nos jogos digitais, com detalhes visuais, por vezes, quase pirosos, mas muito bem feitos. Uma ficção narrativa que assenta no espectáculo sensorial e na acção para nos deliciar com um universo fantástico onde o “agente” infiltrado de raça humana, Jake Sully (Sam Worthington), um paraplégico veterano na Venezuela, começa progressivamente a ficar mais baço na vida real e cada vez mais luminoso na realidade alternativa, e. g., como avatar analógico/digital incorporado. Uma história onde os nativos ganham cada vez mais luz e os humanos vão obscurecendo pelas suas falácias tecnológicas. A mensagem ecologista new age é clara: a sociedade ocidental nada tem para oferecer aos nativos de Pandora. No planeta e na selva do clã Na’vi a vida está estruturada de forma holística sendo que o meio ambiente e os seres vivos estão em sintonia enquanto nós cortámos há muito o cordão umbilical com a nossa fonte de vida, o planeta, a terra. Uma mensagem que assenta na carne como fonte de ligação à natureza, onde o corpo humano está em sintonia com o ambiente no qual está inserido e que por isso mesmo supera dualidades forçadas. Narrativa biológica onde as belas espécies jurássicas e medonhas são convocadas para discorrer sobre a selecção natural. Neste contexto, são os mitos de superação do corpo humano que vêm derrubar as crenças holísticas e o estado de harmonia com a natureza no qual os elementos do clã Na’vi vivem. Jake Sully é aquele que incarna um corpo alternativo num abandono artificial do seu corpo real, deficiente e ineficaz. O simulador que lhe permite aceder a Pandora é tão mais real quanto mais miserável for a sua vida humana, sem pernas não pode correr, sentir as coisas nos pés, magoar a pele e verter sangue e outros fluidos.

A verdade é que o paradigma da realidade alternativa também se vai ajustando ao sabor do tempo e, neste caso, dá relevo à substituição de um corpo por outro através da simulação. Longe estão as ficções mais empolgadas de descarte da carne pelo espírito típicas da década passada. Longe está a ideologia de uma realidade sem agenciamento, sem narração, e novos conceitos vão desfilando em Avatar. Surpreendente é também a forma como se entranha a relação complexa entre colonizador (os americanos) e colonizado (a população da tribo) e, no final, do filme os “transformers” robóticos do ingénuo e bruto comandante parecem de facto tão ridículos que engolimos com estranheza a simplicidade da história. Tudo em Avatar é claro e directo, são as nossas ficções de superioridade que nos fazem cair nas armadilhas mais óbvias.

As cenas dos rituais tribais para salvar a cientista Grace Augustine (Sigourney Weaver) e Jake Sully são talvez excessivas e recordam tanto o filme Invasion of the Body Snatchers (Philip Kaufman, 1978) que, por coincidência, vi recentemente na televisão, como o terceiro Matrix. Estas cenas têm um toque visual e performativo excessivo que é, quanto a mim, desnecessário mas que deve fazer parte das coreografias orquestradas para audiências de massas. O mesmo se pode dizer da banda sonora do filme, uma lamechice que tem o seu apogeu no final e que recorda as baladas de Titanic. Longe do Terminator 2. Sou grande fã de James Cameron e estava com algum receio que desta vez o mestre tivesse caído na ratoeira da “tecnologia pela tecnologia” uma vez que o mito do 3D serve muitas vezes de pretexto para vender mais bilhetes mas fiquei totalmente convencida que James Cameron, à semelhança de Stanley Kubrick, filma pouco mas quando o faz… recomendo vivamente.

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