
Um musical de terror gore que assume plenamente a sua teatralidade, protagonizado por actores que não sabem cantar. Logo à partida, o arrojado projecto do realizador de Eduardo Mãos de Tesoura, Batman e Batman Returns parece resistir a qualquer tipo de comparação com a produção corrente de Hollywood. Se Tim Burton já há muito se tinha afirmado, graças a um universo fantástico tão rico quanto inconfundível, como uma excepção “bankable” no interior duma indústria resistente às idiossincrasias, os seus últimos filmes [1] pareciam desprovidos do carácter aventureiro de obras como as já citadas, ou como Mars Attacks, Ed Wood, Pee Wee’s Pig Adventure e Frankenweenie… Tudo isto para dizer que o avassalador regresso de Burton é um enorme acontecimento para qualquer cinéfilo que se preze. Tanto mais quanto a sua obra, cuja coerência, diga-se, facilita muito (demasiado?) o trabalho do crítico, assume aqui contornos ainda mais tenebrosos do que qualquer dos seus filmes precedentes.
Sweeney Todd é a adaptação do belíssimo musical operático do mesmo nome, composto por Stephen Sondheim e enorme êxito na Broadway em 1979. Em vez de confiar os diferentes papéis a cantores ou de dobrar cada um dos actores, Burton decidiu utilizar as vozes reais dos seus protagonistas. Da mesma forma, como na maioria dos filmes de Burton [2], a artificialidade dos cenários impõe-se, embora aqui se assuma também a sua exiguidade, uma vez que grande parte do filme se passa no condomínio de Mrs. Lovett (Helena Bonham-Carter). Apenas dois ou três planos bastante corriqueiros (quanto a mim os instantes menos conseguidos do filme) – um furioso travelling virtual no início e alguns zooms enfáticos – nos vêm revelar a relativa imensidão do estúdio (do palco) e do décor londrino. Confesso que a radicalidade de tais opções me lembrou, mais que qualquer outro realizador contemporâneo, Manoel de Oliveira [3], autor com o qual Sweeney Todd revela curiosíssimas afinidades formais e temáticas (a crueldade, o pessimismo “metódico”, por exemplo), nem que seja simplesmente porque ambos os realizadores partilham uma fidelidade extrema a um cinema original, “primitivo”, neste caso duplamente visceral: trágico e sangrento.

Desde os primeiros instantes do filme, o logótipo da Dreamworks aparece brumoso e os acordes de órgão vêm afirmar a filiação comum do filme e do musical no género gótico que Burton reapropriou desde os seus primeiros trabalhos. Alguns comentadores mais apressados e desatentos insistem em indicar os filmes da Hammer como uma das matrizes do cinema burtoniano. Todavia, isso é não querer reconhecer que os filmes da Hammer pouco têm de “gótico” excepto o facto de se basearem frequentemente nos clássicos de Mary Shelley ou Bram Stoker. Os filmes da Hammer são sempre [4] versões ligeiras, garridas e distanciadas dos mitos que recriam, muitíssimo menos sombrios por exemplo do que os filmes bem mais antigos de James Whale ou Tod Browning ou que os “giallos [5]” de Mario Bava ou Dario Argento. Quanto a Burton, podemos dizer que descende sobretudo de Roger Corman (The Mask of Red Death é insistentemente citado na sequência fantasmática do baile [6]), que homenageara já em Eduardo Mãos de Tesoura, nomeadamente através da convocação de Vincent Price, ou em Mars Attacks.

Por outro lado, é inegável que Sweeney Todd representa de alguma forma o mergulho do mestre do gótico americano nas raízes britânicas desse subgénero do romantismo. Eduardo…, Sleepy Hollow, Batman Returns, Ed Wood, Mr Jack e Corpse Bride eram já contribuições tão importantes quanto as de Edgar Allan Poe, Stephen King ou Chuck Palahniuk para a estatura que o gótico adquiriu na cultura de além Atlântico. Mas se Sweeney Todd partilha aparentemente mais pontos comuns com Sleepy Hollow do que com qualquer outro dos filmes de Burton, é sem dúvida com Eduardo que os mais profundos paralelismos podem ser estabelecidos. Com efeito, em ambos os filmes Johnny Depp impõe a silhueta pálida e tenebrosa de um banido dotado de mãos lancinantes. Silhueta a que se vem acrescentar em Sweeney Todd uma madeixa branca de assombro e uma terrível expressão cavada pela infelicidade e pelo ressentimento.
Enquanto as tesouras de Eduardo se limitavam a talhar arbustos e a cortar cabelos, inspirando um terror injustificado, as navalhas de Todd rasgam indiscriminadamente as goelas dos seus clientes, assimilados a peças de carne saborosas mas pestilentas. Enquanto Eduardo, misto de Pinóquio e de monstro de Frankenstein, agia como um revelador catártico da crueldade humana, Todd, plenamente humano, é o representante metonímico duma humanidade devoradora e excrementícia.
A criatura do diabólico barbeiro é uma cadeira mecânica, máquina escatológica [7], que devora e evacua as suas presas [8] que serão em seguida devoradas e cagadas pela cidade “full of people and full of shit”. Simetricamente, a estrutura vertical da sociedade industrial, que transforma a beleza em lixo e predação (“On the top of the hole sit a privileged few, making mock of the vermin and the lower zoo, turning beauty into filth and greed…”) [9], é reproduzida pela casa de Mrs. Lovett no sótão da qual se instala a barbearia. Se a merda aparece em Sweeney Todd como o principal produto da humanidade, não podemos esquecer que o seu combustível é o sangue, o outro fluido elementar que irriga todas as tragédias. O menos que se pode dizer é que em Sweeney Todd ele corre a jorros numa furiosa efusão, cuja teatralidade não atenua mas pelo contrário acentua o horror.

Muitas vezes, o exímio trabalho dos actores nos filmes de Burton passa despercebido em favor do enorme talento que o realizador também revela na construção de personagens graficamente poderosas. Neste caso, e tendo em conta que o desafio consistia também em cantar, o trabalho dos actores é particularmente impressionante. Em Sweeney Todd, o realizador cria um autêntico bestiário de criaturas abjectas, tratamento a que escapam apenas as crianças e adolescentes, com a ajuda preciosa de um casting imparável. Timothy Spall (Beadle Bamford), particularmente ascoroso, Sacha Baron Cohen (Pirelli), Alan Rickman (Judge Turpin), sem esquecer os protagonistas Johnny Depp (Todd) e Helena Bonham-Carter (Mrs. Lovett), provam-nos que para bem interpretar uma canção, o mais importante não é saber cantar mas saber encarnar a partitura. Da mesma forma, devemos exaltar o magnífico trabalho orquestral que os acompanha. Quanto a Johnny Depp, só posso dizer que um actor que se dedica com tanta insistência a disfarçar a sua insonsa cara linda merece toda a minha admiração.
Penso que devem ter compreendido: Sweeney Todd não é o mais acessível dos filmes de Burton e afastará possivelmente todos os alérgicos a filmes cantados e a ketchup. Não fiquem no entanto a pensar que se trata de uma obra hermética. A ironia e o humor não estão de todo ausentes e a sua tonalidade sombria e sangrenta inquietará bem mais os adultos do que os adolescentes que saberão ver que paralelamente ao desenlace fatal há uma ténue réstia de esperança. Um possível fim feliz que genialmente Burton sabe colocar fora de campo, numa das mais comoventes e audazes elipses da história do cinema. Porque o cinema, o verdadeiro cinema, não é só o que vemos no ecrã. O cinema é uma história de amor fatal e poder sair cá para fora e afogar as lágrimas num cigarro.
[1]
Sleepy Hollow,
Planet of the Apes,
Big Fish,
Charlie and the Chocolate Factory ou até
Corpse Bride.
[2] As únicas excepções que me ocorrem são, muito parcialmente, Pee Wee’s Big Adventure e Mars Attacks.
[3] Cf. Os Canibais, esse outro filme-ópera canibal.
[4] Excepto quando, já nos anos 70, integram os elementos sexy e gore dos filmes de “exploitation”, na maioria dos casos em detrimento das qualidades formais que fizeram a reputação de um Terence Fisher.
[5] Thrillers italianos. O termo “giallo” (amarelo) refere-se à cor das capas de uma colecção de policiais de gare, extremamente popular em Itália.
[6] Poderíamos também citar, não fora uma tonalidade em tudo oposta à gravidade de Sweeney Todd, The Little Shop of Horrors.
[7] Ao contrário da maquinaria do criador de Eduardo que era ainda um instrumento de criação.
[8] Motivo que figura desde o genérico do filme com requintes de ironia e de charcutaria.
[9] O musical de Sondheim é puramente brechtiano e dele podemos fazer uma leitura marxista.