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February 25th, 2010

“UM HOMEM SINGULAR”_PORQUE O AMOR NÃO ESTÁ NA MODA?

Posted by mouseland in enigmas, cinema

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O filme A Single Man do designer de moda americano Tom Ford (2009) revelou-se, para mim, uma enorme surpresa. A crítica é bastante boa mas não estava de todo à espera que o “texto” fosse tão ambiguamente tocante. Por vezes parece pretensioso, outras vezes, mágico. Pretensioso por causa da arquitectura, das roupas, dos ambientes e dos usos da época, tudo tão certo e aprumado que contrasta com a falta que tudo isso hoje nos faz. Mágico porque essa atmosfera sugere uma experiência estética muito ambígua e rica. No final, e sempre imerso nesta dualidade, o espectador acaba angustiado. Ou antes, eu enquanto espectadora acabei angustiada. A ordem e a arrumação espartana a que o sujeito se submete, a dificuldade com as primeiras horas da manhã e os diálogos interiores do protagonista fizeram-me mergulhar nos meus próprios pensamentos sobre a vida. Neste e noutros aspectos identifiquei-me com o professor Falconer. Uma das situações mais tocantes é o jantar em casa da amiga Charlie (Juliane Moore) quando ambos dançam, meio bêbados, e depois começam a encetar discussões para provar um ao outro que estão vivos. A satisfação e certeza do professor em relação ao passado, uma carreira que o satisfez e da qual não se envergonha (a alusão a uma possível ida para a Universidade de Stanford é disso um bom exemplo), uma relação que o preenchia plenamente e, finalmente, a morte que chega para lhe roubar tudo isso. Brutalmente e sem saída. O desespero de perder tudo de uma assentada, sem dó nem piedade. 

George Falconer ou, se quisermos, o Professor Falconer, numa excelente interpretação de Colin Firth, perde o amante de 16 anos num acidente de viação. No mesmo acidente perde ainda a vida dos dois cães do casal que vivia pacatamente numa estilizada e luxuosa casa de vidro em Los Angeles. Num ambiente que recorda imensamente a atmosfera da série de televisão Mad Men, aqui referida, cuja piscadela de olho não posso deixar de salientar quando se faz uma alusão aos publicitários de Madison Avenue. A série e o filme passam-se ambos no início dos anos sessenta e o ambiente nostálgico do passado é enaltecido por bonitos fatos, casas, carros, cigarros e muito glamour. O filme é baseado no livro do mesmo nome de Christopher Isherwood. A não perder!

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January 31st, 2010

ROGER FEDERER GANHOU!

Posted by mouseland in divulgação, enigmas

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Levantei-me dois dias às 8h30 da manhã para ver a semi-final e a final do Australian Open, ou seja, para ver Roger Federer ganhar com estilo, delicadeza e muito profissionalismo mais um Grand Slam. No estádio cabriolet, pude ver Roger, “o mecanismo de alta precisão suíça”, como os comentadores lhe chamaram, ganhar, na sexta-feira passada, ao francês, Jo-Wilfried Tsonga e, hoje, ao escocês Andy Murray. Duas manhãs de grande ténis que ficaram ambas resolvidas em três partidas. Foi um prazer! Roger Federer voltou a mostrar um desempenho excelente.

January 27th, 2010

DEZ LIVROS QUE… NÃO… MUDARAM A MINHA VIDA (ATÉ HOJE!)

Posted by mouseland in enigmas

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Em resposta ao repto do blogue Machina Speculatrix de Porfírio Silva aqui ficam os dez livros que não mudaram a minha vida. É caso para se dizer “mais vale tarde que nunca” e o “prometido é devido”.

01. Pereira, Aníbal Silva (2010). Artes Digitais em Portugal, uma década. Editora Artes Numéricas, Edições da Câmara Municipal de Sintra.

02. Jesus, Condessa Santos (2009). Os Desastres da (Des)responsabilização Nacional, Editora Planeamento Crítico e Reflexivo, Santa Casa de Lisboa.

03. Hergé, Hermenegildo da Cunha (2002). Contos do Caranguejo Destemido, Explicação Sucinta dos Descobrimentos Portugueses Abordando a Teoria da Complexidade e do Caos, Editora Crónicas da Minha Terra, Lisboa e Porto.

04. Do Cadaval, Justina Cristóvão (2005). A Cultura do Design em Portugal. Livro Comemorativo dos Trinta Anos da Revista Ambiente & Design, Centro Português de Design, Lisboa.

05. Proença, Gabriela Marques (2004). Cem Anos de Feminismo Luso, Publicações Universitárias Ibéricas, Badajoz e Elvas.

06. Garrett, Garcia Matos (2006). As Viagens à Volta do Meu Umbigo, Derivas a Partir de Software Inteligente Produzido no Contexto da Identidade Lusitana, Editora Clássicos Recriados, Lisboa.

07. Dias, Adriana Mata (2008). O País do Fantástico, dos Bibelots e dos Diminutivos, recensão crítica sobre o programa “Querido Mudei a Casa” do canal de televisão Sic Mulher, publicação de tese de mestrado defendida na Universidade do Conhecimento, Editora Esperança Portugal, Lisboa & Amadora.

08. Justino, Artur Castro (2007). Engenheiros do Tempo Perdido, Desconstruir a Função Pública Nacional no Contexto das PMEs. Editora Ideias e Negócios Industriais, Aveiro.

09. Assunção, Filomena Andrade de (2006). Sinergias Nacionais, Enquadramento da Filosofia Quântica na Obra de Amadeo de Souza Cardoso e Mário de Sá Carneiro, Editora Universitária, textos de Arte e Comunicação, Guimarães.

10. Amaral, José Frutado (2003). Reflexos Combinados, Emoções e Queixumes no Âmbito das Novas Profissões Associadas às TIC, Instituto de Cientologia Física, Coimbra.

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January 27th, 2010

IPA NUMA MANHÃ DE SÁBADO

Posted by mouseland in divulgação, mouse conf., enigmas

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No passado dia 16 de Janeiro, Sábado de manhã, fiz, a convite de António Sousa Dias, uma apresentação do meu trabalho aos alunos da Licenciatura em Produção Multimédia Interactiva do IPA (Instituto Superior Autónomo de Estudos Politécnicos). Esta apresentação teve aproximadamente uma hora e partia do tema “Interacções/Transconceptualidades” enquadrando-se na disciplina de Estudos de Espaço, Tempo e Movimento. Da mesma jornada fazia parte uma intervenção do cineasta/escritor/professor António de Macedo que introduziu as categorias clássicas de divisão das artes, i. e., artes do espaço (arquitectura) versus artes do tempo (música) e assim se salientou a importância de considerar o cinema mas também as artes plásticas como artes simultaneamente do espaço e do tempo. Considerou-se ainda que as antigas distinções são impossíveis de manter nos dias que correm pois não dão conta de aspectos transversais entre os diferentes media. Neste contexto, sugeriu-se que o cinema nos remete para a nossa época mesmo quando retrata outros períodos históricos. As roupas de um filme sobre os anos trinta do século passado, quando filmadas nos tempos actuais, dizem-nos tanto sobre a época passada como afirmam inúmeras coisas sobre o tempo presente. As estratégias do realismo cénico foram inquiridas e o realizador português mostrou a sua obra Almada Negreiros, Vivo Hoje, de 1969. Com um sentido crítico apurado a comunicação de António de Macedo foi bastante inspiradora, nomeadamente na forma como alertou os alunos para as práticas nacionais de ocultação daqueles que se destacam, numa tentativa de os tornar invisíveis. Assim, segundo Macedo, quando alguém faz uma coisa bem feita em Portugal não é normal que outra pessoa tente superar esse feito competindo mas é antes comum fingir que essa pessoa não existe. Quarenta anos depois da realização do filme sobre Almada Negreiros o estado-das-coisas no nosso país, sob esta perspectiva, é semelhante. Usando as expressões “para cá de Badajoz” e “para lá de Badajoz”, o cineasta português, assinalou a importância de sair do marasmo nacional para compreender as dinâmicas da criatividade e da arte.

January 22nd, 2010

“MAD MEN”_UMA SUBTIL NUVEM DE FUMO

Posted by mouseland in enigmas, séries tv

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Descobri recentemente a primeira temporada de Mad Men (Matthew Weiner, 2007) depois de ter visto, por acaso, um episódio na RT2. A série passa-se nos anos sessenta numa agência de publicidade de Madison Avenue e remete-nos para a personagem de um atormentado director criativo, Don Draper. O ambiente da série é estranhíssimo. O guarda-roupa e os penteados de época transportam-nos para um mundo onde as personagens fumam cigarros uns a seguir aos outros. Neste universo “fora de tempo” donas de casa entediadas misturam-se com hilariantes visitas ao ginecologista onde o médico, enquanto receita um anticoncepcional, prega um sermão beato à paciente. Farras e orgias recheadas de ostras e cocktails cheios de estilo. Um mundo estranho repleto de personagens que mantêm diálogos desconcertantes e agem de forma bizarra. Tudo coisas que perdemos o hábito de ver na televisão, passadas, remoídas, estranhas… um monte de objectos exóticos: copos de diferentes formatos, projectores de slides transformados em carrosséis, cigarros persistentes, carros antigos, coloridos, que se juntam a um conjunto alargado de conceitos que estando tão “fora de moda” se colam tão bem à realidade actual, cinquenta anos depois. O papel retrógrado da mulher na sociedade, na cultura e no trabalho, o racismo latente, o poder de “homens sem qualidade” nenhuma, a “treta” do negócio e a criação de necessidades fictícias. Vemos, na série, o despoletar da vida nos subúrbios e como esta contrasta com o universo do centro de Nova Iorque.

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A primeira temporada de Mad Men é absolutamente fascinante e dizem-me que as seguintes ainda são melhores. O argumento é de uma subtileza de assinalar com algumas ligações imprevisíveis. A título de exemplo saliento o episódio do vagabundo e a tentativa de recrutamento de Don Draper, por uma agência concorrente que por meios menos lícitos, através da utilização da mulher deste como “isco”, tenta convencer o protagonista a mudar de emprego. Uma ligação que sugere uma mensagem implícita, i. e., há homens com poder e pouco honestos em todo o lado, tanto no campo como na cidade. Este fim-de-semana vou poder começar a segunda época o que me deixa muito contente. Tanta coisa por descobrir e revisitar. Betty Draper é uma personagem misteriosa que contrasta com a irreverente Joan Holloway. Deliro com as estratégias corrompidas de Don Draper e Roger Sterling. Acho a Peggy Olson e o Pete Campbell tão disfuncionais que ainda não percebi onde os devo “encaixar”. Há momentos difíceis de catalogar, nomeadamente a oferta da madeixa de cabelo de Betty, o “desaparecimento” do bolo encomendado da festa de anos da filha dos Draper. Um emaranhado de situações caseiras, políticas (a disputa eleitoral entre Kennedy e Nixon como pano de fundo) e sociais. Fabulosa primeira temporada!

November 30th, 2009

ARSGAMES 09_MADRID ME MATOU!

Posted by mouseland in mouse conf., enigmas, viagens

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A viagem a Madrid correu bastante bem e, curiosamente, fiquei com vontade de lá voltar brevemente mas com tempo para divagar. Madrid recordou-me imenso Paris, nem sei bem porquê, se calhar porque estou a precisar de ir a Paris, onde vivi um ano há quase vinte anos… puro saudosismo e crise de meia idade? Cheguei à noite à capital espanhola e fiquei instalada na Puerta de Toledo, uma praça bem perto de La Casa Encendida, onde tinha que ir no dia seguinte falar. A estada foi muito, muito curta. No dia 20 de Novembro consegui fazer o programa completo do ARSGAMES 09 mas sábado já estava de partida. Vi o vídeo (machinima) do colectivo Les Riches Douaniers: ”Sonate pour la desesperance d’un petit heros”. Dei a minha conferência. Ouvi a conferência de Moisés Mañas da Univesidade Politécnica de Valencia, investigador no Laboratório Luz que funciona desde 1990. Uma apresentação interessante centrada nas instalações do laboratório de cariz interdisciplinar, uma raridade, segundo compreendi depois, em conversa com o autor, tanto em Portugal como em Espanha. Seguiu-se a mesa redonda com participação de José Luis de Vincente, Flavio Escribano e Javier Candeira, uma interessante mostra de projectos / exposições na área dos playable media. José Luis de Vicente mostrou o seu trabalho de coordenação no projecto ARCADIA, um espaço expositivo interactivo no centro de arte Laboral. Flavio Escribano reflectiu sobre a mostra, “Over the Game”, que organizou para o espaço Iniciarte. Finalmente, Javier Candeira apresentou “Estação Futuro”, uma experiência sobre jogos independentes no espaço do Matadero-Intermediae. No final das apresentações seguimos directamente para os concertos, dee-sign/addsensor e Wicked Wanda. Depois de umas ”canhas” acompanhadas por umas batatas fritas e torresmos fomos directamente para o hotel. O dia seguinte foi já um dia de viagem e infelizmente não pude assistir à mesa redonda que juntava Andreas Lange, Mathias Fuchs e Daphne Dragona.

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La Casa Encendida é um espaço inaugurado em 2003. Lara Sanchez Coteron ofereceu-me o catálogo da exposição “Try Again” organizada o ano passado neste espaço e que aborda a área dos playable media e dos jogos. No dia seguinte, voltei para casa com um saco cheio de especialidades espanholas, com a sensação boa de ter voltado de Madrid, como acontecia na minha infância e adolescência, quando Madrid já tinha muito mais a oferecer do que Lisboa. Depois, Lisboa despertou nos anos noventa e as coisas andavam melhor. Agora, parece que voltámos a “meter” a cabeça debaixo da areia. Por todo o lado, por lá, estão iniciativas que reflectem e aprofundam áreas que por cá nem se ouvem falar ou são coisas “nerd”. Os meus agradecimentos a Flavio Escribano pelo convite, acolhimento e viagem.

October 29th, 2009

RIO DE JANEIRO_OUTUBRO_09

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Este blog tem andado com falta de novidades e, por isso, vou fazer um condensado de reflexões, considerações, divagações… Tenho andado literalmente “entalada” em matéria de trabalho. O semestre a começar em força e a viagem ao Rio de Janeiro deixou-me bastante debilitada fisicamente por diversas razões. Este último fim-de-semana consegui, finalmente, fazer boas refeições e dormir profundamente horas suficientes para manter os níveis de adrenalina elevados. Passei a noite da véspera da viagem para o Rio de Janeiro a preparar a sinopse da minha próxima apresentação em Madrid. Nada melhor para ajudar a passar a noite, que já tinha que ser em branco, uma vez que a partida era de madrugada. Assim, no próximo dia 20 de Novembro vou apresentar a comunicação Beyond Art: Digital Aesthetics and Gameplay, advogando que: Gameplay is a core concept in digital aesthetics and can be helpful for us to understand how digital games are beyond art and is the best cultural artefact to speak about digital aesthetics. Taking into account Brian Sutton-Smith statement: “where once art was at the center of moral existence, it now seems possible that play, given all its variable meanings, given the imaginary, will have that central role” (Sutton-Smith, 1997: 144), this presentation will focus on art games, retro games and machinima but also games from the industry to express some perspectives about gameplay and aesthetics. Tenho uma hora para defender esta tese. Mais informações aqui e aqui. Agradeço, desde já, o convite que me foi endereçado por Flavio Escribano do Ars Games, redefining arts & videogames, para participar neste evento: Game Art & Game Studies International Festival.

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No avião para o Rio conheci uma suíça que se sentou ao meu lado devido ao frio gelado do ar condicionado. Bastante simpática mas algo preocupada com as férias que tinha escolhido no Brasil, tudo por causa da segurança. Trocámos algumas ideias e penso que terá ficado mais descansada. Suspeito que existe alguma relação entre o arrefecimento dos aviões e a gripe A pois na semana anterior o P. voou para São Paulo e queixou-se do mesmo problema. Mas nada que possa provar, portanto, mais vale abandonar o assunto. A viagem foi pacífica mas no avião presenciei duas quedas em “poços” de ar daquelas coisas que deixam qualquer pessoa nervosa. Fiquei muda e hirta a olhar para a Monique que teve a mesma reacção que eu. O modelo do avião da Ibéria, onde viajei, não tinha ecrãs de vídeo e jogos individuais pelo que qualquer hipótese de ver filmes ficou logo gorada. Como não estava capacitada para ler acabei a dormitar de forma intermitente.

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Cheguei ao Rio de Janeiro era noite cerrada e a procura de um táxi foi no mínimo hilariante. Cinco senhoras gritam aos turistas, dos quatro ou cinco guichés disponíveis no aeroporto, a oferecer os serviços de táxi. Depois, é só pagar e procurar o táxi que nos calhou na rifa. No meu caso, um rapaz veio ter comigo mas claro que, bem desconfiada, não lhe passei a mala para a mão sem confirmar a cor do veículo que tinha ao meu dispor. O código era: frota azul, vermelha, preta ou prata. A frase queria dizer pouco e o sistema é totalmente falível mas o rapaz ainda teve que me apresentar o logótipo na camisa. Lá “embarquei”, com um senhor de idade, bastante simpático, e passei por uma fila de trânsito assinalável até chegar ao Rio. As favelas vão desfilando e à noite o cenário é mesmo fantasmagórico.

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Chegar ao hotel em Copacabana foi um conforto imenso e adormeci depois de devorar o resto de uma sandes que trazia comigo desde madrugada. Na manhã seguinte, debaixo de chuva, lá fui até à PUC, de táxi, tentar regularizar a minha inscrição, e a de um colega, no simpósio, uma vez que em Lisboa tinha sido impossível a Universidade fazê-lo pois a organização não aceitava transferências bancárias. Iniciei a minha escalada pelo surrealismo… O evento também não aceitava pagamentos Visa e nenhum dos bancos, Santander, Itaú, Banco do Brasil, entre outros, no interior da universidade, permitia o levantamento com cartões Visa. Depois de “implorar” aos “capangas” da segurança dos bancos inúmeras vezes para entrar nas suas dependências no sentido de verificar outras possibilidades, lá percebi que tinha que ir chorar a minha entrada naquele dia e voltar lá no dia seguinte com a quantia da inscrição em dinheiro. Ora, andar com dinheiro “vivo” no Brasil é quase tão mau quanto andar com um Visa Electron mas o P. chegava no dia seguinte e seria a minha salvação porque, para mim, ir procurar um banco em Copacabana e andar por ali a testar levantamentos era impensável. Aprendi, nos meses de estada em São Paulo durante três anos, que há coisas no Brasil que só se fazem quando têm mesmo que ser feitas e a organização tinha que resolver a minha situação senão ficavam sem “palestrante” por vinte minutos. Assim aconteceu. Fui ao balcão de atendimento do Sbgames 09 e convenci a senhora a dar-me acesso nesse dia que voltava lá no dia seguinte para fazer o pagamento. Nesta fase já tinha lutado comigo própria, e com os meus nervos, muitas vezes, e permanecer, a apanhar chuva, entre cá e lá, nos edifícios da PUC, a resolver coisas insensatas, foi suficiente para ter vontade de abortar a missão mas, finalmente, lá me aguentei.

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Depois, quando olhei para o mapa, com os vários sítios dos eventos, que finalmente me forneceram juntamente com o crachá mas sem os restantes materiais, percebi que encontrar o lugar onde teria que estar ia ser mais uma aventura. Perguntei, perguntei, ninguém sabia de nada… até que, finalmente, depois de muita subida e descida de escadas lá cheguei. Tinha imenso tempo mas decidi não arredar pé pois começava a sentir os efeitos do jet lag. No espaço das apresentações estava a decorrer outro evento qualquer e a sala estava ainda cheia. Fui logo avisada que aquilo ia atrasar bastante mas, nesta altura, já estava pacificada à espera da hora de cumprir a missão e de me “pisgar” para o hotel. O resto da tarde decorreu dentro da normalidade num evento destes. Encontrei a Lynn Alves e conheci dois portugueses da Universidade de Coimbra que, muito simpáticos, me vieram avisar que estava tudo atrasado. Falei, recebi felicitações, ouvi as outras intervenções e, por volta das 19h, decidi regressar ao hotel pois já não aguentava estar mais tempo sentada depois do voo da véspera. Decidi abandonar a sala cedo demais segundo percebi mais tarde. Perante uma noite cerrada e muita chuva, pedi ao porteiro da universidade para me arranjar um táxi. Enviou-me para uma fila de pessoas enorme e, claro, momentos depois pude constatar que só arranjava táxis às pessoas que conhecia enquanto nós, na bicha, os víamos passar à nossa frente. Apanhei uma molha, esperei uma hora e, o pior, estava bastante frio e eu não estava assim muito agasalhada.

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Quando cheguei ao hotel dei 4 reais de gorjeta ao taxista que me levou com bastante rapidez e empenho da Gávea a Copacabana, uns 40 minutos, estava tudo parado… Fui num carro a cair de podre mas com uma excelente banda sonora. O senhor sorriu nitidamente perante o exagero da minha gorjeta e disse-me que o problema daquele dia é que as ruas estavam todas entupidas devido à chuva que não parava. Cheguei ao hotel e pedi uma deliciosa canja, como só os brasileiros fazem e que é quase tão boa quanto a nossa, hehehe, e uma “pasta”. Tudo no quarto. Não tinha energia para sair e adormeci a ouvir as notícias.

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Sexta-feira, dia 9 de Outubro, o P. chegou de São Paulo logo às dez da manhã e foi regularizar as coisas comigo à PUC. Fui mostrar-lhe as instalações e o refeitório da Universidade e tentei falar com algumas pessoas da organização, em vão, ninguém sabia onde estavam ou quem eram. O mesmo “número” da véspera. Continuava a chover copiosamente e por isso comprámos umas pastas para proteger os materiais da inscrição. Falámos com dois “rapazes” da Trinigy (GmbH e Brasil) e circulámos por lá. O regresso ao hotel foi mais fácil porque ainda era dia e à noite fomos jantar a um restaurante tradicional japonês, Azumi, nas redondezas do hotel. Uma experiência gastronómica que recomendo vivamente para quem foi ou vai ao Rio de Janeiro. Ainda nos sentámos no bar do rés-do-chão do nosso hotel antes de deitar mas o ambiente não era muito recomendável. Pelo que me dizem, acho que é assim em Copacabana por todo o lado, e logo nos lembrámos porque é que da outra vez tínhamos ficado em Ipanema, com a favela muito mais presente, mas sem esta aura decadente de droga e prostituição. O hotel era de um “padrão” elevado, como dizem os brasileiros, escolhido “a dedo” e nada barato e mesmo assim… Nesta fase, e depois de várias viagens pelo Brasil, já interiorizei bem o verdadeiro significado da expressão “gato-por-lebre”. Em poucos minutos conseguimos ver um ataque de prostitutas aos turistas do nosso hotel, a tentativa do porteiro bloquear a entrada das referidas senhoras no lobby deste, uma passagem de droga… Nunca tinha visto nada tão descarado na vida. Um rapaz foi embaraçosamente assaltado por uma senhora que lhe começou a disparar beijos na cara e na boca e o mesmo, estupefacto, teve que a enxotar, sem dó nem piedade. Deprimente q. b..

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No dia seguinte, ainda debaixo de chuva, fomos visitar o MAM, Museu de Arte Moderna, e vimos umas exposições interessantes. Jantámos no restaurante do hotel, com uma vista maravilhosa da praia deserta, devido ao mau tempo, de Copacabana. Na manhã seguinte tomámos o pequeno-almoço com um casal de amigos de São Paulo e partimos para o aeroporto. O taxista que nos levou disse-nos que não tinha memória de ver tanta chuva seguida no Rio de Janeiro. Só na manhã da partida é que fez sol. A minha segunda ida a esta cidade fez-me pensar em algumas coisas relativamente a São Paulo: no Rio de Janeiro os “sucos” de fruta são mais frequentes e melhores; o Rio fica muito mais bonito sem gente por todo o lado e a praia parece mágica vazia mas, a cidade sendo muito mais charmosa que São Paulo, continua, para mim, sem a mesma magia, talvez devido aos negócios… Em São Paulo parece haver uma cultura de maior exigência; o Rio de Janeiro é mais cosmopolita, afirma-se como a capital cultural do Brasil, será que é? O turismo dá-lhe vida, sem dúvida, mas parece em muitas coisas uma cidade provinciana. Ok, confesso. Para mim nunca será uma metrópole maravilhosa e estava à espera de ver muito mais entusiasmo em relação aos Jogos Olímpicos de 2016. Acho que as pessoas percebem bem os inúmeros problemas que têm pela frente e devem ainda estar aterradas com a perspectiva. O aeroporto é um evidente espelho da cidade e a cena dos balcões de táxis, com as diversas senhoras aos berros à cata do cliente, é tão surreal que parece que chegámos ao fim do mundo. Não sei se é porque não tenho muita sorte com as minhas viagens ao Rio de Janeiro, se a cidade é apenas algo superficial para mim ou, se tudo me escapa sempre porque São Paulo é, de facto, mais interessante na sua estrutura caótica. A viagem ao Rio teve o efeito de me levar de volta a São Paulo. As fotografias do Rio de Janeiro foram todas tiradas em 2003, com sol. As fotografias em baixo são de São Paulo, uma cidade onde vivi uns tempos e onde um dia vou voltar.

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Em Madrid fiquei cinco horas à espera do próximo voo para Lisboa e chegar a casa foi um alívio. No dia seguinte tinha aulas para dar. Os meus agradecimentos à Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias (projecto infomedia) por ter financiado o meu bilhete de avião para o Brasil.

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October 4th, 2009

AS NOSTÁLGICAS PRAIAS DE AGNÈS VARDA

Posted by mouseland in ciberfeminismo, enigmas, cinema

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Les Plages d’Agnès Varda (Agnès Varda, 2008). O auto-retrato documentário de uma cineasta que se aproxima dos oitenta anos e que fala da sua infância, das suas experiências e paixões. As praias que marcaram a sua vida atravessam a memória de Agnès Varda que quis contar aos seus filhos e netos o seu passado, o tempo que viveu antes deles nascerem. Agnès Varda interpreta o papel de uma “pequena” velha que conta a sua vida e, no entanto, segundo afirma, são os outros que a interessam verdadeiramente e que gosta de filmar. Um filme nostálgico que nos mostra as bizarrias da fotógrafa, cineasta, viajante, curiosa, sempre à procura de qualquer coisa que a motive o suficiente para fazer um filme. Agnès Varda dá-nos, nas suas praias imensas, um pouco de outros filmes que realizou, as tropelias com os legumes de Les Glaneurs et La Glaneuse (2000) e Les Glaneurs et La Glaneuse… Deux ans aprés (2002), o andar à deriva de Sans toit ni loi (1985), L’univers de Jacques Demy (1995), entre outros. O momento no qual Agnès Varda fala da relação com o cineasta Jacques Demy e realça o facto de existirem casais que têm a sorte de viver a velhice juntos pareceu-me profundamente triste. Triste, mas não deprimente, nostálgico, como se Jacques Demy estivesse ainda tão vivo e passaram 19 anos desde que o cineasta francês morreu e Agnès Varda parece ainda estar a falar para ele. Contudo, aqui está um filme cheio de boa disposição, humor e muita criatividade. A fotografia, a pintura, a escultura, as encenações teatrais que envolvem entrevistas com um gato animado fazem-nos acreditar, em cada “poro” da pele da película, que a realizadora encontrou o seu “ponto zen”. O momento em a arte já não imita a vida mas toda a vida é arte. Mais informações na entrevista com a cineasta aqui ou uma curta apresentação do filme aqui.

September 23rd, 2009

TALLINN OU LISBOA?_AGOSTO 09

Posted by mouseland in enigmas, viagens

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Fomos para Tallinn de barco a partir de Helsínquia e chegar ao porto de desembargue é uma sensação bizarra e desoladora. É verdade que estávamos no penúltimo dia de viagem pelo que uma certa nostalgia contaminava certamente o nosso espírito. Ao longe, ainda no barco, deparámos com as casas de várias cores alinhadas na horizontal mas a paisagem circundante é no mínimo angustiante devido ao aspecto abandonado a que a costa da cidade está votada. A linha do mar é acompanhada por uma mancha de edifícios degradados e tudo está agora voltado de costas para o mar. O pontão onde chegámos deve ter sido noutros tempos um sumptuoso restaurante, gigantesco, talvez arquitectura russa agora destruída e cheia de graffitis sem personalidade nenhuma. Um par de namorados pontuava, aqui e ali, um cenário de turistas que se dirigiam em manada para o centro da cidade. Passámos pelo outrora museu de arte contemporânea com as duas esculturas-cabeças e, com o céu cerrado, o frio e a ideia de final de férias, depois de uma viagem de barco bastante agradável de hora e meia, o panorama geral de Tallinn pareceu-me triste.

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O centro da cidade é outra coisa, está mais arranjado e é muito bonito, mas estive sempre com a sensação que tinha voltado a Lisboa nos anos oitenta. Sentámo-nos num bar do centro, onde as pessoas fumavam cachimbo (narguilé) e lembrei-me várias vezes do Bairro Alto dos anos oitenta e início dos noventa, quando tudo ainda era underground, secreto e se sentia no ar um ambiente de liberdade adolescente. Mas o centro é muito turístico e os preços acompanham a entrada da Estónia para a União Europeia em 2004. Almoçamos pessimamente a preços desconcertantes. A “sociedade secreta” de Tallinn escapou-me completamente e achei o ambiente estranho. Ficou tudo por conhecer mas ainda deambulámos por um centro comercial e pelas redondezas da zona histórica para ver se percebíamos alguma coisa. No futuro Tallinn talvez fique uma cidade maravilhosa, tem tudo para isso, mas por agora a pobreza faz-se sentir demasiado, principalmente para quem vem de Helsínquia. Acho que o que mais me incomodou em Tallinn foi a consciência de que ia regressar a Lisboa e perceber como ia estar tão longe da limpeza das cidades da Finlândia e de São Petersburgo. Tallinn trouxe-me o sentimento da “realidade” e por isso no porto antecipámos o nosso regresso a Helsínquia para duas horas antes. Queríamos viver mais um pouco o paraíso de Helsínquia e Tallinn parecia demasiado real naquele momento, demasiado próximo.

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Cheguei a Lisboa no final de Agosto. No início de Setembro li a crónica da Inês Pedrosa na revista Única do jornal Expresso sobre os procedimentos do hospital de Santa Maria em relação a uma infeliz rapariga violada. Segundo aqui se revela, a pobre rapariga esteve onze horas à espera de uma zaragatoa, uma vergonha que me deixou boquiaberta e que mostra bem o funcionamento actual dos serviços públicos. Na minha rua assisti a inúmeras cenas de histeria desenfreada, berros como se toda a gente andasse zangada e quisesse que os outros o sentissem. No supermercado, ali para os lados da Praça do Chile, assisti ao assalto de uma garrafa de água de 33 cl. Num outro dia, passámos, eu e o P., por um dos sem-abrigo residentes aqui no bairro, no centro de Lisboa na zona da Alameda, a mijar a dois passos do restaurante local e a mais dois passos do sítio onde dorme… foi de tal ordem embaraçoso que o rapaz até se sentiu na obrigação de nos pedir desculpa. Com a mesma mão com a qual fumava um cigarro, a cair de bêbado, e a mijar na via pública com a outra mão. A calçada da cidade está tão imunda que cheira mal e o chão encardido cola nos pés quando andamos. As beatas andam por todo lado, atiradas ao piparote pelos fumadores que acham que a rua é equivalente a lixeira pública. Finalmente, anos depois do prometido, o troço de ligação das duas linhas de metro, azul e vermelha, está concluído mas a cidade de Lisboa é uma lixeira cheia de edifícios degradados e não entrou para a comunidade europeia em 2004… Tallinn lembrou-me que ia regressar para umas eleições onde todos são culpados mas ninguém tem a culpa. Tallinn lembrou-me Lisboa. Houve ali um efeito fantasma que não sou capaz de desvendar mas as férias estavam a acabar.

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August 11th, 2009

“DUPLO AMOR”_ UM PÊNDULO DE EMOÇÕES

Posted by mouseland in enigmas, cinema

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Two Lovers (James Gray, 2008) é um daqueles melodramas que não se esquecem facilmente mesmo que se comece a duvidar do caleidoscópio de emoções que conta a história de um possível doente bipolar e dos seus amores desesperados. Entre a loucura do amor-paixão com Michelle Rausch (Gwyneth Paltrow) e o solene compromisso com Sandra Cohen (Vinessa Shaw), Leonard Kraditor (Joaquin Phoenix), oscila como um pêndulo até se ver encurralado pelo conjunto de manipulações em que se deixou sucumbir. Sandra quer tratar de Leonard. Leonard talvez considere que consegue tratar de Michelle. Michelle parece saber que ele não é capaz de o fazer. Tudo na acção se resolve exteriormente à vontade de Leonard, numa dança concertada, em que todos sabem o que é melhor para o protagonista e onde este pode afinal a todos agradar. Ao sabor dos seus próprios estados de espírito, hoje eufóricos, amanhã melancólicos, como a sua presumível doença, de lá para cá… o duplo sentido de cada uma das mulheres. Se o final fosse outro, o filme seria, quanto a mim, certamente moralista mas a tese contrária também é possível. Ópera e fado fazem parte da banda sonora e ajudam a contextualizar o conjunto de enquadramentos detalhados onde os tumultuosos sentimentos de Leonard se encaixam numa fotografia encantatória. 

Falta dizer que normalmente embirro bastante com Joaquin Phoenix e também com o lado sonso de Gwyneth Paltrow. Neste filme, no entanto, revelam-se ambos tão disfuncionais que é bastante interessante o contraste com o que é habitual nas suas performances. Em Two Lovers parecem dois adolescentes à procura de um sentido qualquer e sempre propensos à asneirada, potenciam-se. Isabella Rossellini é uma pérola, terna e serena, no papel de mãe de Leonard, sempre à espreita nos buracos das portas e nos interstícios das acções bizarras do filho. Tudo no seio de uma família com origens russas que vive do negócio da limpeza a seco. No início do filme, o protagonista chega a casa todo molhado depois de uma tentativa suicida onde perdeu alguma roupa da lavandaria dos pais. Naquele momento da sua errante trajectória pendular, e depois de ter optado pela vida, parece ser Leonard que precisa de uma limpeza a seco, como só os pais lhe podem proporcionar. O inferno das suas oscilações deve ser imenso.

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