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August 13th, 2009

FÉRIAS, FÉRIAS, FÉRIAS, ALLELUIA!

Posted by mouseland in segredos, viagens

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Este ano vou à descoberta da Finlândia, da Rússia e da Estónia. Parto hoje de férias às 7 da manhã com direcção a Helsínquia e escala em Amesterdão. Dia 16 de Agosto vou para São Petersburgo, regressando dia 20 de Agosto à Finlândia, para uma travessia até à Lapónia e uma ida a Tallinn na Estónia. Estou ansiosa e sinceramente bem que preciso pois este Verão até agora foi uma maratona de trabalho.

Até dia 30 de Julho estive numa “guerra lúdica” para publicação de um paper numa conferência em Londres. Depois de várias revisões e confusões lá consegui ver a maratona concluída e sinceramente estou a apreciar a forma como me estou progressivamente a transformar numa paper freak. A sério… depois de ter trocado variados e-mails com o chair da conferência lá consegui ver a situação chegar a bom porto. Desta vez o “jogo” envolveu tantas nuances que não dá para explicar num simples post e só posso afirmar que aprendi imenso e que será certamente dos meus textos mais complexos e suados. Quanto ao processo de selecção de artigos foi uma verdadeira aprendizagem e o meu trauma é conseguir não fazer a ninguém o que me fizeram a mim, uma vez que, por vezes, estou no papel contrário. Quando o texto estiver on-line coloco nos links das publicações da mouse para apreciação. A verdade é que dia 27 de Agosto devia ir debitar 25 minutos, mais 5 de perguntas, do meu discurso a Londres, mas desta vez não vou pois há coisas que não têm preço. Arrgh e o preço da conferência?!? Ainda sinto um arrepio só de pensar, mesmo sendo um custo que a Universidade Lusófona (projecto Infomedia), vai assumir. Para mim é inacreditável como estas coisas se processam nos dias de hoje nestes encontros mega académicos. Tenho que agradecer, sem dúvida, a disponibilidade da Universidade, à qual pertenço, para me apoiar nestas deambulações intelectuais sobre entretenimento digital, jogos, ficção e narrativa interactiva. Sabendo que hoje o prestígio das universidades se mede pela quantidade de papers publicados e patentes registadas não deixo de ficar surpreendida com os montantes envolvidos para participar nestes eventos.

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De dia 31 de Julho até hoje estive a rever artigos de duas conferências, uma tarefa cada vez mais árdua pois os textos são sofisticados e em número alargado isto, claro, em comparação com edições anteriores, nas quais tive também o prazer de participar. Cada pessoa recebe agora mais participações para analisar e isso é certamente um bom sinal. Eu própria submeti trabalhos a alguns congressos e aguardo com expectativa o resultado. Paper freak, sem dúvida! Por um lado, uma boa notícia, este estado de “batalha lúdica pela publicação” transformou-me numa viciada no escritor japonês Haruki Murakami, pois os seus livros são uma baforada de ar fresco no meio das formalidades e dos formulários que tenho que preencher on-line. Por outro lado, há sempre o conto dos azedos e a prova dos corvos, no seu livro de contos A Rapariga que Inventou um Sonho. No conto “Ascensão e Queda dos Azedos”, Murakami, conta como a empresa de bolos tradicionais “azedos” se vê confrontada com a necessidade de inovação. Assim, abre-se um concurso na tentativa de descobrir novos talentos na confecção dos doces “azedos”. Depois de submeter a sua fórmula a concurso o protagonista desta história é convocado para a prova final com os corvos pois o seu trabalho teve uma assinalável aceitação perante o primeiro júri mas levantou muita polémica. Neste contexto, a personagem desta história dirige-se à empresa onde é confrontado com a antes referida prova dos corvos, ou seja, um conjunto de pássaros que, das duas uma, ou apreciam imenso os inovadores espécimes de “azedos” ou, em alternativa, os odeiam tanto que também acabam por odiar quem os aprecia e por isso mesmo começam a bicar os seus colegas mais ousados. Uma parábola sobre a aceitação literária de Haruki Murakami no Japão que me caiu no goto num momento decisivo da minha “luta lúdica” acima descrita.

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De resto, e porque vou partir para férias, garanto-vos que este ano foi muito cheio de actividade e que estou a precisar de um bom descanso pois o primeiro semestre do próximo ano lectivo pode dar direito a alguma emoção e tenho que recarregar as baterias até lá. Deixo-vos com alguns momentos registados em vídeo dos encontros nos quais participei recentemente e que estão agora disponíveis on-line para o caso de ficarem com saudades. Ah! E podem rir à vontade, eu própria adoro ridicularizar o meu inglês, a minha dicção e essas coisas todas… Talvez porque pensaram que eu era italiana em Barcelona agora ganhei a convicção que pareço uma italiana louca. Então depois do cómico episódio londrino, com inúmeros contornos hilariantes, acho que já cheguei àquela fase em que o que me interessa verdadeiramente é aprender com os processos. Estou confiante que é isso que vale mesmo a pena. Aqui podem visualizar a comunicação de 50 minutos que fiz em Março em Buenos Aires, uma “selecção do Medialab Prado”, ou fazer o download do meu artigo em inglês e/ou espanhol. Na wiki do projecto Mobile Cells podem ver a minha apresentação, a comunicação de cinquenta minutos em podcast (aqui) e a entrevista no Citilab em Cornelà Barcelona (aqui). Podem ainda consultar algumas fotos do ambiente da sala ou ver o powerpoint apresentado no slide share. Enjoy! Depois não digam que não vos dou trabalho de casa, hehehe. Até ao meu regresso e tomem bem conta da casa.

March 28th, 2009

“O LEITOR”_AMOR-PAIXÃO LAMECHAS

Posted by mouseland in segredos, cinema

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The Reader de Stephen Daldry (2008), com Ralph Fiennes e Kate Winslet, relata a paixão de um adolescente por uma mulher que o ajuda, por acaso, na rua. Bem filmado e com um enredo com um certo ritmo, o filme acaba por ser uma lamechice bem contada sobre um segredo guardado durante vários anos. The Reader está muito longe da frescura e dinâmica de Billy Elliot (2000) ou da densidade psicológica de The Hours (2002), ambos do mesmo realizador. A prestação de Kate Winslet, quando comparada com a sua aparição em Revolutionary Road, do seu marido Sam Mendes (2008), é mais pobre e deixa-nos com vontade de questionar as estratégias da academia de Hollywood que a premiaram como melhor actriz em The Reader e não em Revolutionary Road. Enfim, este artefacto cinematográfico vê-se bem mas nem o enquadramento da Segunda Grande Guerra nem as questões morais levantadas pelas aulas de direito do protagonista sustentam uma narrativa cheia de inconsistências. Quem é que ainda acredita que um adolescente de quinze anos fica a vida toda marcado, ao ponto de nunca mais conseguir estabelecer laços amorosos relevantes, por uma história de amor com uma mulher mais velha do que ele e que pertenceu às SS? Ainda mais estranhamente o sujeito da história é advogado e conhece profundamente, no início da idade adulta, a situação doentia na qual esteve envolvido… demasiado amor-paixão para o século XXI não? Mais uma piscadela de olho da cultura popular às relações entre homens novatos ou mesmo adolescentes e mulheres de meia-idade? Qualquer dia podemos mesmo considerar que este tipo de relacionamentos se transformou em tendência dado o número expressivo de filmes a potenciar este cenário.

March 27th, 2009

GRAN TORINO_UMA NUVEM SIMULTANEAMENTE NÍTIDA E ESBATIDA

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No Domingo passado fui ver Gran Torino de Clint Eastwood (2008) ao cinema Monumental. Um filme que se presta bastante bem ao exercício do contraditório e sobre o qual vou explicitar apenas parte do enredo que o meu cérebro construiu à volta do mesmo. Vou deixar que outros construam a outra metade se for caso disso. Se pudesse seleccionar duas cenas que me impressionaram em Gran Torino não hesitava em assinalar a introdução do miúdo asiático à barbearia e aos diálogos que deveria estabelecer com futuros empregadores, assim como a cena de degustação chinesa em casa dos vizinhos. Dois momentos inesquecíveis. A história é interessante e dada a unanimidade da critica nacional é quase pecaminoso dizer que é também bastante óbvia, um velho solitário que se aproxima de dois putos asiáticos carentes que antes vilipendiou… uma outra forma de mostrar o problema da integração dos imigrantes nos Estados Unidos, também explorada em The Visitor (2007), mas aqui ampliada por um confronto mais intenso entre um ex-combatente na Guerra da Coreia e uma família de raízes asiáticas. O que em The Visitor é amenizado pelo facto do confronto entre culturas se dar com um professor universitário, que até estuda o assunto em questão, neste filme, de Clint Eastwood, a problemática é bem mais complexa porque afinal Walt Kowalski é um acérrimo defensor dos valores, dos bens criados e produzidos na América (trabalhou a vida toda na Ford), e da moral do seu país, sendo muito pouco permeável a miscigenações. 

Ora, depois de muito contestar a contaminação dos estranhos no seu bairro, sujeitos que nem as próprias casas sabem preservar, eis senão quando Walt Kowalski se torna o mais próximo possível daqueles que antes pensou poder ignorar… outra mensagem começa a delimitar-se no filme… os miúdos e as diversas tribos urbanas, carentes de apoio familiar, fazem notar a sua deriva total através de um afastamento a qualquer contacto afectivo. A neta de Walt Kowalski, de piercing e a mascar pastilha elástica no funeral da avó, é incapaz de denunciar alguma sensibilidade pelo enterro desta e a sua única preocupação é o carro que poderá herdar. Os filhos e uma das noras do senhor são autênticos abutres insensíveis que não conseguem sequer entender os laços que este nutre pela casa onde vive e pelo carro que preserva há anos. A verdade é que, sendo pai, Walt Kowalski, é responsável pelas acções dos filhos e dos netos, os quais sempre de alguma forma afastou da sua esfera afectiva. Na casa ao lado, pelo contrário, Walt Kowalski encontra outra realidade, uma família que ainda preserva a lealdade e o respeito pelas tradições e pela palavra dos mais velhos. Curioso é notar que no filme de Laurent Cantet, Entre Les Murs, ou A Turma (2008), o aluno asiático também parece ser o único miúdo que realmente se esforça por uma boa educação e que considera estranho o comportamento dos colegas.

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A perspectiva multicultural apresentada no filme é interessante na medida em que expressa o ponto de vista de um americano de idade que acabou de ficar viúvo, o mesmo acontece aliás em The Visitor, um indivíduo que cresceu e viveu num bairro suburbano com todo um conjunto de valores que vê agora pilhados, misturados e boicotados, quando o seu poiso de sempre é invadido por imigrantes. Nesta situação, Walt Kowalski vai progressivamente amolecendo nos seus princípios e deixando que “os outros” lhe vão contaminando o coração envelhecido, duro e de ex-combatente na guerra. O que arrepia ali, afinal, não é a sorte malfadada do idoso mas a deriva dos putos que precisam de homens como ele para os orientarem na vida, a deriva de todas aquelas personagens, numa sociedade cheia de contradições que parece gerar uma total incapacidade para se sair do esquema montado por outros (família, bandidos, políticos, banqueiros, empregadores ou vizinhos…). Neste sentido, penso que o filme de Sidney Lumet, Before the devil knows you’re dead (2007), sobre o planeamento de um assalto à joalharia dos país elaborado por dois filhos para pagar dívidas associadas com um “certo” estilo de vida, é bastante mais subversivo e complexo. Este filme parece ir de encontro a uma lei chinesa que obriga os pais de filhos condenados à morte a pagarem a bala que os matou pois são responsáveis pelas acções destes. Neste contexto, também em Before the devil knows you’re dead, os pais acabam por pagar a má conduta dos filhos mas, o que assusta em ambos os filmes, é perceber que os contornos da jaula são tão nítidos e simultaneamente tão esbatidos e enevoados.

March 20th, 2009

BUENOS AIRES_SOFISTICADA E CULTA

Posted by mouseland in segredos, viagens

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Ora, com tantos pedidos vou assim fazer o tão esperado relatório das aventuras e desventuras da mouse nas pampas. Cheguei a Buenos Aires na terça-feira de manhã depois de uma viagem cheia de turbulência, de quase dezasseis horas contando com a escala em Paris, onde não resisti à tentação de ver no avião o máximo de filmes que consegui. Assim, fui surpreendida pelo filme The Duchess (2008), uma obra que vale a pena essencialmente pela narrativa histórica, que desconhecia, e por alguma possível interpretação ciberfeminista. Achei bastante estimulante a forma como são apresentadas as relação das personagens, a sua engrenagem nas instituições (políticas, culturais, sociais…) e o enredo amoroso algo escabroso. Vi Australia (2008) que me pareceu um filme enfadonho e nem as paisagens, nem Nicole Kidman e Hugh Jackman, me convenceram. É verdade que dado que não tinha legendas e com a turbulência a bordo alguns diálogos foram difíceis de seguir mas em geral pareceu-me um enorme pastelão de clichés. Seguiu-se, Rachel Getting Married (2008), um filme que estava desejosa de ver pois sou uma admiradora de Jonathan Demme desde Something Wild de 1986. Gostei bastante pelos actores, pelo relato de uma família disfuncional, pela ambiência caótica e epidérmica, documental e simples. Finalmente, vi The Visitor (2007), um filme bastante curioso e que, mais uma vez, nos mostra como o cinema pode estar mesmo a caminhar para estas produções singelas de baixo orçamento. Bons actores e uma história que todos conhecemos mas que se torna mais nítida naquela caminhada pelos meandros da imigração nos Estados Unidos. Enfim… como podem calcular com o visionamento de tanta película dormi pouquíssimo.

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No aeroporto de Buenos Aires lá esperei mais de meia hora pelo carimbo no passaporte e, sempre com receio de extravio de bagagem, lá vi aparecer a minha mala laranjinha de 12 quilos na passadeira rolante. Fui comprar a viagem de táxi a uma empresa creditada pelo aeroporto, depois de várias propostas de taxistas não creditados, claro! “Aterrei” no Hotel Íbis no centro da cidade por volta das onze horas, morta de cansaço. Tomei banho e por momentos pensei que não tinha energia para não me meter na cama. Recomendo vivamente este local, preço/qualidade garantido, e bem situado numa praça interessante da cidade. Como na porta do meu quarto tinha tantas advertências sobre segurança, rapidamente me senti consciencializada com a ideia que estava num país sul-americano. Desde 2007 que não sabia o que isso era e lembrei-me logo de uma situação evidente dos procedimentos que é preciso tomar nestas ocasiões, ou seja, reduzir ao mínimo a exteriorização de relógios, máquinas, carteiras, ou qualquer outro objecto apelativo. Uma vez aqui em Lisboa fui ao Colombo, depois de uma estada em São Paulo de muitos meses, e ainda sentia a pressão de olhar e controlar a carteira em cada esquina. Estava aqui como se estivesse em São Paulo.

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Lá me decidi a ir explorar o local dos encontros 3rd Inclusiva-net Meeting: NET.ART (SECOND EPOCH). The Evolution of Artistic Creation in the Net-system pois sabia que tinha que fazer o percurso a pé, dado que o trânsito é imenso naquela zona, e foi assim que percorri os doze quarteirões do hotel ao espaço do Centro Cultural de Espanha em Buenos Aires (CCEBA). Lá fui, com o mapa Google, a disfarçar as espreitadelas ao papelucho e a tentar mostrar que conhecia cada esquina de Buenos Aires como a palma da minha mão. Naquela tarde ainda me parecia pouco provável pensar em transportar o computador às costas mas, nos dias seguintes, já nem me lembrava das advertências sobre segurança na porta do meu quarto. Reconhecia as ruas que tinha percorrido há cinco anos e o corpo já se tinha adaptado novamente à América do Sul. Estava a começar a reconhecer os cheiros, o ambiente e as sinuosidades do território. O caminho nessa tarde pareceu imenso e quando cheguei ainda ouvi o final da comunicação de Curt Cloninger.

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No intervalo entre a sessão da tarde e a sessão da manhã fui deglutir uma costeleta de “cerdo” com puré de maça que me soube divinalmente e às 16 horas já estava de volta para ouvir a comunicação de Steve Dietz. Este seminário foi interessante e curiosamente foi apontado o gaming como uma tendência da evolução das práticas artísticas. Fiquei com alguma confiança para a minha apresentação pois parecia quase uma introdução às manobras que eu apontaria como a minha área de investigação actual. Depois de umas compras nas redondezas cai na cama com o noticiário: um surto de taxistas violadores e a insegurança e a violência tomavam conta da agenda do dia. Ouvi ainda nas notícias que se aproximava um dia seguinte em que chovia em Buenos Aires aquilo que poderia chover durante um mês inteiro… 

Quarta-feira choveu literalmente o dia todo. Cuidadosamente decidi vergar-me à preguiça, não fosse adoecer, e passar o dia a descansar e a treinar a comunicação no hotel. Dado o cansaço acumulado, o excesso de ar condicionado dos últimos dias e a chuva, nem as redondezas do Íbis me pareceram convidativas a um passeio e decidi colocar os e-mails em dia e dormir descansadamente num stop over decisivo para o dia seguinte. 

Quinta-feira fui almoçar com os organizadores, Juan Martin Prada, director do programa, José Luis de Vicente, jornalista e comissário de vários festivais e eventos sobre cultura digital e Marcos Garcia do Medialab_Prado. Antes dos cinquenta minutos de fama não tinha grande apetite e pelas quatro horas lá estava eu a debitar a minha conversa para uma audiência de mais ou menos cinquenta pessoas que, segundo percebi no dia seguinte, vinham de vários cantos da América Latina (Peru, Chile, Brasil, etc.), dois ou três americanos e espanhóis. O resto da audiência parecia da Argentina, de Buenos Aires mas não só. No final, Steve Dietz comentou que a minha comunicação tinha muita informação e pediu para referenciar novamente o nome de Egas Moniz. Uma argentina de Cordóba, assim como um amigo dela, disseram-me que tinham gostado muito da apresentação e que os tinha deixado sem palavras pois era muito diferente das outras. Para além disso acabei por ter pouco feedback. Juan Martin Prada agradeceu-me novamente, ouve palmas, mas não sei exactamente o que quiseram dizer por questões talvez culturais. Não tive nenhum “bravo” como em Vancouver, sniff, sniff. O público também era muito mais novo, na sua generalidade, do que o do Canadá.

Seguiu-se o seminário de Daniel Garcia Andújar sobre plataformas para comunidades digitais. Penso que estava um bocado abananada com o efeito pós missão cumprida para apreender algumas coisas mas confesso que achei um pouco confuso. No dia seguinte fui assistir ao grupo de discussão que foi interessante e onde se apresentaram alguns projectos com piada provenientes do Peru, do Chile, da Argentina e onde Marcos Garcia apresentou o Medialab Prado. Gostei principalmente do robot que junta lixo (basura), da máquina de gerar sonhos, Dreamlines e do projecto Outsource Me! Tudo presente na apresentação do argentino Leonardo Solaas.

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Curiosamente em 2003 uma das coisas que mais me surpreendeu na visita que fiz a Buenos Aires foi a forma como o lixo tem uma presença tão intensa na cidade. Para quem vinha de São Paulo e chegava à sofisticada Buenos Aires ver tanta gente a remexer no lixo era um fenómeno que não escapava facilmente à atenção mesmo de um turista. Desta vez constatei que esse olhar era mais real do que na altura pensei. Como se pode constatar no site Basurama e na introdução de Leonardo Solaas aos robots recolectores. O lixo torna-se uma presença constante, pequenos aglomerados e lixeiras pela cidade, remexidos, pesquisados. É uma coisa estranha.

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De resto, de assinalar uma ida ao cineclube, INCAA, Instituto Nacional de Cine Y Artes Audiovisuales, ver o filme Rodney de Diego Rafecas sobre um miúdo de nove anos e as suas relações com uma família disfuncional. Um filme um bocado desequilibrado e com um argumento por vezes patético. Uma maravilhosa degustação de Ceviche num restaurante Peruano chamado Chan Chan recomendado no Time Out Buenos Aires. Um naco de carne na pedra em Puerto Madero acompanhado por uma salada temperada à la carte e tudo regado com um delicioso copo de vinho argentino. Finalmente, uma visita à livraria el ateneo, já lá tinha estado mas não resisti ir espreitar novamente a recuperação de um teatro onde tantos artistas representaram no passado. Saber mais aqui. Pela primeira vez me disseram para não tirar notas de livros numa livraria… fui coagida por uma segurança a não tirar apontamentos. Tenho o vício de ir buscar inspiração às livrarias locais e depois encomendar os livros pela net, se calhar é desonesto, pelo menos ali nem sequer é permitido. 

Para casa trouxe uma “degustação” de cinema argentino em DVD: Nueve Reinas (2000) de Fábian Bielinsky, um divertido filme sobre dois burlões passado no oponente Hotel Hilton de Puerto Madero, dois actores excelentes, Ricardo Darín e Gastón Pauls, e um enredo que vale mesmo a pena conhecer. Histórias Mínimas (2002) de Carlos Sorin, uma obra que encanta pela simplicidade, pelos enquadramentos subtis e por uma boa direcção de arte. Com música de Carlos Paredes. O argumento remete-nos para três histórias cruzadas, um idoso que decide procurar o seu cão desaparecido há três anos, uma mulher em viagem em direcção a um concurso de televisão e um vendedor ambulante que leva um bolo de anos ao filho de uma mulher que mal conhece. O enigmático e surrealista El Lado Oscuro del Corazón (1992) de Eliseo Subiela que, confesso, tanto achei interessante como um bocado pretensioso e que narra a relação entre uma prostituta de Montevideo e um poeta de Buenos Aires. Finalmente, Tapas (2005) de José Corbacho e Juan Cruz que ainda não vi.

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O regresso foi calmo e depois de pagas as taxas para deixar o país lá vi mais um ou dois filmes no voo de regresso, o último 007 que achei um bocado fraco e outro que sinceramente já não me recordo qual foi. Voltei a tentar ver o Wall-E e não é que adormeci precisamente no mesmo sítio do filme… aquele filme para mim tem um efeito soporífero e até penso que vou comprar o DVD como terapia da insónia. Buenos Aires deixou-me saudades é uma cidade incrível, as pessoas são de uma simpatia muito especial, discretas, transpiram sofisticação e cultura. É como encontrar um pouco de Paris na América do Sul.

Resta-me aqui reiterar os mais sinceros agradecimentos a Sonia Díez Thale (Medialab_Prado), por ter tratado da minha viagem, hotel e de todos os procedimentos necessários à ida para Buenos Aires, a Juan Martin Prada (director do programa 3er Inclusiva-net) pela forma calorosa como me apresentou, a Marcos Garcia (Medialab_Prado) pelo apoio logístico, à Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias pela integração no projecto Infomedia e à Inês Santa por ter tomado conta da tradução do texto.

November 22nd, 2008

VANCOUVER, ICONOGRAFIAS_HALLOWEEN

Posted by mouseland in segredos, viagens

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August 11th, 2008

08.08.08_ABERTURA DOS JOGOS OLÍMPICOS, SEM DRAGÕES, COM CALIGRAFIA

Posted by mouseland in festas, segredos

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A cenografia da cerimónia de abertura dos jogos olímpicos de 2008 esteve ao cuidado do realizador chinês Yimou Zhang. Esta cenografia foi acompanhada pelo trabalho do coreografo Zhang Jigang e do músico Tan Dun. Yimou Zhang é o realizador de Milho Vermelho (1987), Esposas e concubinas (1992), Herói (2002), O segredo dos Punhais Voadores (2004) e A Maldição da Flor Dourada (2006), entre outros. Os filmes dispensam apresentações e fazem deste realizador um nome incontornável da filmografia chinesa. As críticas que o dizem vergado ao regime, depois de um período maldito, e que chamam a atenção para a função política das cerimónias olímpicas (cf. Mourinha, jornal Público de 9 de Agosto de 2008) pouco interessam neste contexto festivo e Yimou Zhang conseguiu resumir e condensar milhares de anos de história e cultura em poucas horas.

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Pelo que vi na televisão a cerimónia foi bastante sóbria e cenicamente muito interessante. O voo/corrida do ginasta Li Ning para a tocha, desenrolando um pergaminho com a história da cultura chinesa, é uma imagem muito forte e a apresentação da coreografia sobre a invenção da escrita pareceu-me magnifica. As roupas e a disciplina corporal dos figurantes fizeram-se notar e ao ver as notícias, no dia 08.08.08, sobre a capacidade de organização da República Popular da China, fiquei com uma nostalgia imensa. As imagens fizeram-me sentir saudades do país, da Ásia… há um ano estava eu a fazer as malas para um périplo na China.

July 6th, 2008

YOANI SÁNCHEZ VERSUS FIDEL CASTRO, O MACHO-VARÃO-MASCULINO!

Posted by mouseland in ciberfeminismo, cibercultura, segredos

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Embora tarde não posso deixar de fazer referência ao diferendo entre Yoani Sánchez e Fidel Castro. A autora do blogue Geração Y de 32 anos, que ganhou recentemente o Prémio Ortega y Gasset de jornalismo digital, viu-se impossibilitada pelas autoridades cubanas para ir a Madrid receber o mesmo. Fidel Castro mostrou-se incomodado com algumas declarações de Yoani Sánchez depois deste desagradável episódio e a filóloga de formação e professora de espanhol para estrangeiros, segundo a revista Veja de 28 de Maio, por sobrevivência, não se fez rogada em responder-lhe com acidez. A polémica está bastante bem explicada neste artigo, de 21 de Junho, do jornal El País. O que me pareceu delicioso foi a forma como Yoani Sánchez pediu ao marido, o jornalista Reinaldo Escobar, que respondesse, depois deste diferendo, a Fidel Castro com a seguinte argumentação: “Ao sentir-me atacada por alguém com um poder infinitamente superior ao meu, com mais do dobro da minha idade e ainda mais, como diriam as minhas vizinhas de infância, por um macho-varão-masculino, decidi que fosse o meu esposo (…) a responder”. E assim foi.

June 14th, 2008

JESSE JAMES E ROBERT FORD, AS DUAS FACES DA MESMA MOEDA?

Posted by mouseland in segredos, cinema

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Não estava nada à espera mas gostei imenso do filme O assassínio de Jesse James pelo cobarde Robert Ford (Andrew Dominik, 2007). Com uma enorme ambiguidade narrativa conta-se a história do bandido mais conhecido do oeste norte-americano. Jesse James e o irmão Frank James eram agricultores antes de se dedicarem ao crime tendo assaltado inúmeros bancos e comboios. Mataram algumas pessoas e segundo reza a lenda James tinha problemas nervosos que o levavam a perder frequentemente a cabeça.

Neste filme a história é contada de forma não-linear com avanços e recuos na progressão do enredo. Robert Ford faz tudo para pertencer ao bando de Jesse James porque tem uma admiração pelo bandido que o acompanha desde a mais tenra idade. No entanto, essa mesma admiração acaba por ser degradada pela forma como vê o “outro”, um espelho de si mesmo, sucumbir a comportamentos abjectos. Durante todo o filme somos levados a considerar que Jesse James era de facto louco e ao mesmo tempo não conseguimos deixar de nutrir uma certa admiração pela personagem. O mesmo acontece em relação a Robert Ford. Existe uma enorme ambivalência, conceito que nos remete para sentidos oposto mas válidos. Uma forma de ambiguidade termo “proposto pelo psicanalista Eugen Bleuler (Vortrag über Ambivalenz, 1910) e [que] foi depois redefinido por Freud. Está ligado na origem às atitudes e comportamentos humanos. Ocorre na atribuição de sentimentos opostos ao mesmo indivíduo. Casos comuns são os da ambivalência da aceitação e da rejeição, do amor e do ódio pela mesma pessoa (…). Na interpretação dos sonhos, verifica-se também que certos quadros possuem uma dupla significação: aqueles que despertam ao mesmo tempo o medo e o desejo de um mesmo objecto, por exemplo” (Carlos Seia, sobre a ambivalência).

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A personalidade complexa dos dois homens, Jesse e Robert, que fizeram parte da lenda e da história do fora-da-lei que é traído pelo amigo e companheiro de infortúnio é ali desmistificada e simultaneamente enaltecida. James, ora é um tipo sem escrúpulos ora um justiceiro que rouba aos ricos para dar aos pobres, tipo Robin dos bosques. Robert, ora é um fã incondicional da lenda (James), ora um cobarde frio e calculista que “vende” o amigo para conseguir fama. James teve direito a fotografia e a túmulo, Robert morre anónimo, é ridicularizado e esquecido. As duas faces da mesma moeda? O filme tem ainda uma direcção de arte e uma fotografia de grande qualidade cénica assim como uma banda sonora também excelente ou não estivesse envolvido Nick Cave. Casey Affleck supera as expectativas, faz esquecer Brad Pitt que também não vai nada mal. Adorei. Qualquer dia, em breve, vou ver outra vez.

May 4th, 2008

“CANVAS”_IMERSÃO OPEN SOURCE

Posted by mouseland in divulgação, arte e design, segredos

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Vi recentemente na Universidade Lusófona de Lisboa, Auditório Vítor Sá, uma apresentação do projecto CANVAS. Este projecto adopta estratégias semelhantes às usadas anteriormente em ambientes de software CAVE ou CUBE e é interessante na medida em que potencia a concepção e manipulação de ambientes 3D por parte de artistas pouco versados em programação. Este espaço alternativo de escrita em colaboração, potenciado por uma espacialidade do tipo 3D, tem uma navegação avançada e estimula a criação e apresentação de aplicações que tiram partido da interacção humano-máquina de forma gestual e imersiva. O laboratório ou galeria digital que desenvolve o projecto CANVAS situa-se na Universidade de Illinois e este sistema baseia-se num sistema operativo do tipo SYZYGY, concebido por Benjamin Schaeffer, e numa linguagem de programação open source que corre em Windows, Linux ou macOSX. No site do projecto é possível fazer o download do CANVAS. A comunicação foi proferida por três elementos do grupo de investigação e foi bastante aliciante gerando, no final, um debate concorrido. Os autores do projecto CANVAS estiveram na Universidade Lusófona de Lisboa no dia 22 de Abril a convite de José Neves.

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April 11th, 2008

O DEUS ZIDANE E AS ESTRATÉGIAS DA ARTE CONTEMPORÂNEA

Posted by mouseland in segredos, cinema

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Vi finalmente o filme do escocês Douglas Gordon e do francês Philippe Parreno, Zidane, um retrato do século XXI (2006). O filme é o reflexo da captação de imagens a partir de dezassete câmaras de um jogo entre o Real Madrid e o Villareal no estádio do Santiago Barnabéu. As câmaras estão todas apontadas para o jogador de futebol francês. A ideia é simples e baseia-se na explicitação da mestria técnica implicada nas projecções actuais de futebol introduzindo um novo foco de atenção. Neste contexto, os autores pediram a um conjunto alargado dos melhores operadores de câmara mundiais e técnicos cinematográficos para procederem ao levantamento das imagens de Zidane em campo naquele jogo específico. Assim, se optou por trocar o foco da atenção do espectador, normalmente associado à percepção da bola, pelo ponto de vista centralizado no jogador. 

Uma experiência desta natureza lembrou-me o trabalho em vídeo do israelita Uri Tzaig, onde o artista insere duas bolas num jogo, explicitando o seu interesse em jogos de competição e as inerentes referências cinemáticas captadas para posterior projecção televisiva. Uri Tzaig já foi aqui introduzido. Zidane, um retrato do século XXI é um filme curioso mas fico um bocado com a sensação que usa uma fórmula algo gasta do ponto de vista artístico, ou seja, a ideia de partir de um processo de descontrução do jogo tradicional e popular para fazer um documentário com algum carácter subversivo sobre as práticas em campo é tudo menos novo. Não que tenha nada contra, bem pelo contrário, em relação às práticas subversivas de desmistificação da cultura popular mas acho que a resposta de Douglas Gordon e Philippe Parreno acaba por ser o endeusamento do jogador. Sobre este movimento refiro, a título de exemplo, os profundos pensamentos de Zidane na legendagem do documentário, qualquer coisa sobre a natureza fragmentada da experiência de jogo, pensamentos sobre a percepção do relvado e sobre a memória posterior à saída de campo. Ironizando um bocado, estive, por segundos, convencida que Zidane era um leitor assíduo de Henri Bergson ou de António Damásio e que dominava algumas teorias sobre percepção da realidade (Bergson) e construção cinematográfica da memória (Damásio). Claro que rapidamente me recordei que aquele documentário é produzido no contexto das artes contemporâneas e logo me pareceu evidente o movimento de sacralização da cultura. Neste caso concreto da cultura para massas. 

No contexto da corporação global lúdica e do mercado da arte contemporânea o deus Zidane leva consigo mais dois deuses: Douglas Gordon e Philippe Parreno. Desta forma o produto Zidane, um retrato do século XXI, sai enriquecido na conjuntura de estrelas e vende uma marca com chancela global. Gostei deste aspecto mas para quem gosta de futebol as declarações dos críticos de cinema portugueses na contra capa da edição portuguesa são no mínimo surpreendentes, Joaquim Leitão afirma: “das melhores imagens de um jogo de futebol que eu já vi”. Não reproduzo mais. 

 O DVD é muito fraco em matéria de extras, uma entrevista mínima com o futebolista, a dizer porque aceitou o projecto, e mais uns minutos de comentários dos realizadores e da equipa sobre o privilégio que foi produzir e realizar aquele documentário. Não achei nenhuma obra-prima.

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