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January 22nd, 2010

“MAD MEN”_UMA SUBTIL NUVEM DE FUMO

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Descobri recentemente a primeira temporada de Mad Men (Matthew Weiner, 2007) depois de ter visto, por acaso, um episódio na RT2. A série passa-se nos anos sessenta numa agência de publicidade de Madison Avenue e remete-nos para a personagem de um atormentado director criativo, Don Draper. O ambiente da série é estranhíssimo. O guarda-roupa e os penteados de época transportam-nos para um mundo onde as personagens fumam cigarros uns a seguir aos outros. Neste universo “fora de tempo” donas de casa entediadas misturam-se com hilariantes visitas ao ginecologista onde o médico, enquanto receita um anticoncepcional, prega um sermão beato à paciente. Farras e orgias recheadas de ostras e cocktails cheios de estilo. Um mundo estranho repleto de personagens que mantêm diálogos desconcertantes e agem de forma bizarra. Tudo coisas que perdemos o hábito de ver na televisão, passadas, remoídas, estranhas… um monte de objectos exóticos: copos de diferentes formatos, projectores de slides transformados em carrosséis, cigarros persistentes, carros antigos, coloridos, que se juntam a um conjunto alargado de conceitos que estando tão “fora de moda” se colam tão bem à realidade actual, cinquenta anos depois. O papel retrógrado da mulher na sociedade, na cultura e no trabalho, o racismo latente, o poder de “homens sem qualidade” nenhuma, a “treta” do negócio e a criação de necessidades fictícias. Vemos, na série, o despoletar da vida nos subúrbios e como esta contrasta com o universo do centro de Nova Iorque.

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A primeira temporada de Mad Men é absolutamente fascinante e dizem-me que as seguintes ainda são melhores. O argumento é de uma subtileza de assinalar com algumas ligações imprevisíveis. A título de exemplo saliento o episódio do vagabundo e a tentativa de recrutamento de Don Draper, por uma agência concorrente que por meios menos lícitos, através da utilização da mulher deste como “isco”, tenta convencer o protagonista a mudar de emprego. Uma ligação que sugere uma mensagem implícita, i. e., há homens com poder e pouco honestos em todo o lado, tanto no campo como na cidade. Este fim-de-semana vou poder começar a segunda época o que me deixa muito contente. Tanta coisa por descobrir e revisitar. Betty Draper é uma personagem misteriosa que contrasta com a irreverente Joan Holloway. Deliro com as estratégias corrompidas de Don Draper e Roger Sterling. Acho a Peggy Olson e o Pete Campbell tão disfuncionais que ainda não percebi onde os devo “encaixar”. Há momentos difíceis de catalogar, nomeadamente a oferta da madeixa de cabelo de Betty, o “desaparecimento” do bolo encomendado da festa de anos da filha dos Draper. Um emaranhado de situações caseiras, políticas (a disputa eleitoral entre Kennedy e Nixon como pano de fundo) e sociais. Fabulosa primeira temporada!

December 31st, 2009

DEZEMBRO SÉRIES DE TELEVISÃO_2009

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Vi não há muito tempo a primeira temporada de Prison Break (Paul Scheuring / Fox, 2005_), uma série que me entusiasmou mas que segundo me dizem deixa de valer a pena na segunda temporada, com os protagonistas já fora da prisão. A saga de Michael Scofield (Wentworth Miller) para salvar o irmão da pena de morte é bem construída e tem alguns pormenores alucinantes em termos criativos, nomeadamente a forma como a tatuagem do corpo da personagem principal nos vai revelando o seu plano estratégico e a maneira como as várias personagens se interligam entre elas. Surgem também aspectos interessantes a partir da composição das relações sociais na prisão que se vão desvendando progressivamente. Os episódios da primeira temporada sustentam-se através dos diálogos e do enredo global feito de interacções entre prisioneiros. Não sei se vale mais do que isso mas apreciei a experiência.

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Mais recentemente tive o prazer de ver, finalmente, a primeira temporada completa de Dexter (Showtime, 2006_) já aqui anteriormente apresentada por rafgouv. Uma série que nos faz vibrar, um mergulho às profundezas da mente de um criminoso e especialista em ciência forense, analista de “pegadas” e impressões de sangue, que conseguiu camuflar as suas tendências homicidas para uma cruzada contra criminosos mais abjectos. A verdade é que a série nos catapulta para um mundo em que somos tentados a apreciar as estratégias anómalas de Dexter o que nos deixa absolutamente baralhados com a experiência da mais pura ambiguidade. Tanto o protagonista, o “arranjadinho” David Fincher (Michael C. Hall) de Six Feet Under (HBO, 2001), como o artista das esculturas mórbidas, o maquiavélico Ice Truck Killer, são tão abjectos como sedutores, oscilam através de um universo pendular de repúdio e fascínio no qual a irmã de Dexter, Debra, nunca consegue penetrar. Uma série estranha onde o corpo fisiológico é reconstruído através dos movimentos lúdicos das personagens, numa dança de membros e fluidos que se transforma simultaneamente numa serenata romântica e num espaço de repúdio. Tudo na série é visualmente arrumadinho à superfície: o colarinho de Dexter, a casa dele, a esquadra da polícia, a namorada, a irmã, mas todos têm as entranhas reviradas (a namorada violada inúmeras vezes pelo ex-marido junkie, a irmã que não se consegue ligar…). Por fora tudo é funcional, por dentro tudo é disfuncional. A pouco e pouco vamos reconstituindo a história do protagonista e cruzando informações. A mais pura ambiguidade começa a tomar conta da cabeça do espectador. O DVD da série traz um documentário sobre a aplicação das técnicas usadas por Dexter na série mas desta vez na vida real. Este documentário explica como a ciência forense pode ser útil na reconstituição das eventuais cenas de crime. Para Dexter não é só necessário reconstituir as cenas de morte produzidas por outros mas também é fundamental trazer à superfície as cenas que o levaram a ser como é, simultaneamente um criminoso e um justiceiro. A não perder.

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Por fim, “consumi” num fim-de-semana a quinta temporada completa de Lost (ABC, 2004_). Esta série é uma obra de uma enorme complexidade narrativa e cada nova temporada revela novas e intrincadas pistas. Se na primeira época salientei algumas suspeições (aqui) actualmente considero o conjunto das cinco edições insuperáveis em matéria de argumento, realização e direcção de actores. Mesmo quando Lost funciona como uma gigantesca telenovela revela detalhes de uma subtileza assinalável do ponto de vista da ficção de entretenimento. As personagens transformam-se conforme vamos progredindo na trama e o enredo é tão aditivo que não deixa margem para dúvidas: temos que seguir as deambulações pela ilha, conhecer os segredos de Jacob, Benjamim e de mais um punhado de gente que adopta nomes de filósofos. As personagens não sabem bem o que andam a fazer mas continuam porque no percurso é que está o segredo. A iniciativa Dharma, os “outros”, as oscilações no espaço-tempo que provocam clarões e pequenos tremores de terra mas também a mudança de época levam-nos para um mundo onde nada faz sentido mas ao mesmo tempo tudo faz sentido. Um caldeirão de coisas já implícitas nas outras temporadas surgem agora remisturadas e obrigam-nos a fazer um exercício de memória onde as ligações que se estabelecem dependem também da imaginação do espectador. Esta série prova claramente as teorias de Steven Johnson no livro Everything Bad Is Good for You: How Today’s Popular Culture is Actually Making Us Smarter, mesmo sendo este o livro mais fraco que li do autor. De acordo com Johnson, uma coisa é evidente as séries de televisão desta década sugerem leituras bem mais complexas do que aquelas que existiam nos anos setenta, pedindo ao leitor/espectador que descodifique tramas e participe na interpretação das obras de forma intertextual e aberta. O ARG do Lost anda aí e deve ser fascinante.

August 12th, 2008

“LOST”, UMA SÉRIE BASTANTE ADITIVA

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Finalmente consegui ver a primeira série completa do Lost (Perdidos, 2004/05). Esta série dramática foi criada por J.J. Abrams, Jeffrey Lieber e Damon Lindelof e é produzida pela ABC Studios, Bad Robot Productions e Grass Skirt Productions. Lost começa com a queda numa ilha de um avião proveniente de Sydney com destino a Los Angeles. Penso que esta parte da narrativa sobre a série toda a gente conhece… o que me pareceu ainda digno de algumas notas foi o que me surpreendeu no conjunto dos 25 episódios que tive oportunidade de ver. Em primeiro lugar, achei o ambiente de Lost absolutamente aditivo, há episódios em que quase nada se passa e bastam os diálogos entre as personagens para nos agarrar naquela luta pela sobrevivência dos 47 felizardos que escaparam à morte no voo 815. Até o epilogo “bad robot” é, à semelhança do “that’s a bad hat harry” do Dr. House, algo que ajuda a fomentar o vício. Os eventos são normalmente do tipo tarefas que têm que ser cumpridas, i. e., caçar um javali, construir abrigos, desenvolver dispositivos de comunicação ou explorar a ilha misteriosa. Depois, recorrentemente, há discussões entre os sobreviventes, todos desconfiam uns dos outros e têm que ganhar relações de confiança e amizade na adversidade. Normalmente as discussões acabam numa luta e é necessário que uns corram em auxílio dos seus pares. Pode acontecer que uma espécie, aparentemente desconhecida mas posteriormente identificável, surja para complicar a vida dos sobreviventes em apuros: um urso polar, um javali, um pássaro gigantesco, são apenas alguns exemplos. Estes animais são ameaças constantes mas raramente os conseguimos ver totalmente, são fugazes e geram intriga. Depois há os espécimes verdadeiramente misteriosos cujo ruído ouvimos mas que nunca aparecem, nem sei se existem de facto, se são humanos, extraterrestres, ou, em alternativa, imaginários e provenientes de alucinações.

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A acção de Lost tem dois níveis diferentes, mas paralelos em termos narrativos, um deles remete-nos para o dia-a-dia na ilha e é personificado pela manutenção da vida daquela comunidade de estranhos. O outro, conta a história dos sobreviventes daquele avião em flashbacks. Lost é uma boa telenovela ao nível da construção das personagens: Jack, o médico bonzinho que é capaz de denunciar o próprio pai para manter a sua integridade moral, personifica a visão científica dentro do grupo, amado e respeitado por todos à excepção de um (Sawyer). Kate, a magricela de sardas que parece um erro de casting e tem tantos segredos escondidos que nem dá para perceber como passa pela boazinha do “quarteirão”. Hurley, o nerd milionário que acredita que foi enfeitiçado pelos números. Charlie, o junkie pop star sempre com um ar aparvalhado. Claire a mãe virginal. Michael o pai extremoso que foi impedido de ver o filho quando este tinha dois anos. O casal de coreanos que vivem uma possível união de amor e introduzem na comunidade as medicinas e a ciência oriental (Jin e Sun). Os irmãos incestuosos que afinal não são irmãos (Boone e Shannon). O guru do Locke que acredita em desígnios e está plenamente convicto que a queda do avião é fruto de um destino já traçado, um homem com fé. Sayid, o iraquiano que foge possivelmente de qualquer estereótipo racista sobre árabes (o que diria Jack Shaheen, especialista e consultor de filmes em assuntos relacionados com o Médio Oriente, desta personagem?) mas que mesmo assim tem um ar de carneiro mal morto embeiçado pela loira mais tola da praia. E, finalmente, o sacana do Sawyer, mau à superfície e na retaguarda, sem esquemas, o meu herói na série, juntamente com o defunto Boone, ex-CEO numa agência (da mãe) de eventos de casamento e morto em “combate”. 

Sawyer e Boone são, para mim, as personagens mais estimulantes da primeira série o que não quer dizer que as outras não o sejam também na sua configuração do tipo arquétipo. Existem personagens algo aterradoras como Ethan, o canadiano, ou a francesa Danielle, perdida há 16 anos na ilha. Lost deve ter qualquer de subliminar pois a verdade é que se entranha com uma certa facilidade. Muitos episódios terminam de forma inesperada com um enorme suspense e tensão, nomeadamente o último desta série que nos dá vontade de ir a correr comprar o volume seguinte. Lost, é uma série aditiva onde a animalidade e o instinto de sobrevivência se juntam num mosaico de sensações e emoções à flor da pele. Creepy!

May 25th, 2008

CONAN_O RAPAZ DO FUTURO_SÉRIE ANIME

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Acabei hoje de rever os primeiros treze episódios da série anime, Conan, o rapaz do futuro (do japonês Mirai Shonen Conan), de Hayao Miyazaki (1978) realizador do filme, A viagem de Chihiro, entre outros. Alguns anos depois da 3ª Guerra Mundial, que rebentou em 2008, um miúdo (Conan) e uma miúda (Lana), ambos de 11 anos, encontram-se e juntos acabam por passar imensas aventuras perigosas. 

Na série no ano de 2008 o planeta Terra sofreu uma ameaça de extinção provocada por nações beligerantes que desenvolveram armas ultra-magnéticas e pelos tecnocratas cheios de cobiça de Industria, parque tecnológico cujos donos procuram Lana para que esta os leve até ao seu avô, um dos mais especializados cientistas da época na área da energia solar. Como resultado das experiências bélicas a terra e o mar foram destruídos e o eixo do planeta ficou retorcido despoletando uma catástrofe inesperada.

A série é muito interessante do ponto de vista gráfico e conta uma história bastante simples de luta pela sobrevivência. Nesta narrativa de ficção científica os miúdos revelam a sua força extraordinária através de poderes especiais. Conan é mesmo um excepcional corredor e tem uma força assinalável. Lana consegue ouvir telepaticamente e ambos demonstram uma coragem capaz de endireitar um mundo destruído pela cobiça e pela cegueira. No final, enquanto o avô de Lana (Dr. Lao) parte para alertar outros humanos da agitação maciça da crosta terrestre em vias de sofrer uma quebra bastante perigosa, Lana, Conan e Jimpsy (um amigo resgatado nas viagens dos dois) dirigem-se a High Harbor, aldeia onde Lana vivia anteriormente e que nos oferece um cenário paradisíaco de vida na Terra, verdejante e alegre. Uma série a rever!

April 27th, 2008

“HEROES”_NEODARWINISMO OU CRIACIONISMO?

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Acabei de ver a primeira temporada da série Heroes (Tim Kring, 2006), drama de ficção científica que conta a história de um conjunto de pessoas comuns que descobrem que têm poderes especiais. Nunca fica totalmente claro, quanto a mim, se os super-heróis de Heroes são o resultado de uma evolução da espécie humana se são fruto de manipulações genéticas provenientes de algumas empresas biomédicas. Estes seres vivem uma realidade aumentada pelas suas capacidades fora da norma e tanto podem voar, como ouvir os pensamentos dos outros, regenerar os seus próprios tecidos, viajar no tempo ou pintar o futuro. Fazem parte de um mosaico, ao estilo narrativo da banda desenhada, metáfora usada na construção da própria estrutura da série, que se vai seguindo com curiosidade de episódio para episódio. O fito destes seres especiais é evitar uma explosão em Nova Iorque para assim salvar a humanidade.

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Heroes é uma série curiosa e ao mesmo tempo algo disparatada na forma como introduz algumas questões interessantes. Passa-se constantemente de um discurso sobre a teoria da evolução das espécies de Darwin a uma narrativa sobre o design inteligente que advoga que cada um de nós vem ao mundo com um destino traçado. Seria curioso enquadrar esta série no âmbito das inúmeras discussões entre os estudiosos de Darwin, na senda de Stephen Jay Gould (já falecido) e de Richard Dawkins, e os mentores do design inteligente. Ora, sendo evidente que os últimos são bastante desprezados pelos primeiros a série vem certamente dar corpo a esses debates polémicos entre ciência neodarwinista e criacionismo.

Heroes tem personagens muito engraçadas e bem construídas misturadas com personagens absolutamente desnecessárias. Existe na série, parece-me, uma constante ambiguidade entre bons e maus, heróis e vilões, cientistas e bandidos. A narrativa é constantemente reconstruída e vamos seguindo, com curiosidade, as peripécias daqueles seres fantásticos que têm nas mãos o destino da humanidade. Com eles vamos fazendo e refazendo acções, no sentido de perceber como é que uma tomada de decisão em determinado momento pode ser fulcral para o evoluir de momentos posteriores. Há sempre quem possa voltar ao passado, como Hiro, o japonês filho de um empresário da biomedicina, personagem de livros de banda desenhada que antecipam o futuro e herói ao serviço do destino do mundo. O meu herói favorito!

March 19th, 2008

“WEEDS”_ UMA VIDA SEM PLANO

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Acabei de ver a primeira época da série Weeds (Jenji Kohan, 2005) uma comédia negra bastante subversiva em matéria de argumento. Já tinha visto dois ou três episódios mas agora segui a primeira temporada de fio a pavio e gostei bastante do non sense inerente às aventuras e desventuras da viúva Nancy Botwin (Mary-Louise Parker). Depois da morte súbita do marido, Nancy, uma burguesa de subúrbio, para conseguir sobreviver e manter a vida privilegiada dos dois filhos dedica-se ao tráfego de erva na provinciana cidade de Agrestic, Califórnia. Os episódios da primeira temporada vão num crescendo hilariante que começa com o início da actividade ilegal da viúva acabando, depois de vários revezes, com a sua profissionalização no tráfego de maconha. 

Há uns tempos vi um interessante filme inglês, Saving Grace de Nigel Cole (2000), sobre a história de uma viúva dos seus sessenta e tal anos cujo marido se suicida. Esta senhora para resolver os problemas financeiros herdados e os quais desconhecia acaba a cultivar erva com a ajuda do jardineiro. O filme tem cenas bastante cómicas como a pedrada das amigas da protagonista na loja/mercearia da aldeia e o chá de “ervas” para um grupo mais vasto em casa da viúva. Uma comédia deliciosa sobre a complexidade da vida que acabei por rever em pensamento através desta série que foi beber certamente inspiração no filme. 

O ambiente de Weeds pareceu-me totalmente ambíguo pois se inicialmente sugere mais uma série leve do tipo Desperate Housewives logo se revela mais próxima, em matéria de argumento, de Six Feet Under. As personagens andam quase todas à deriva e cometem constantemente actos surrealistas e cómicos sem qualquer sentido. Por vezes fiquei angustiada pela crueza dos acontecimentos mas não consegui deixar de os enquadrar com humor. Uma situação sintomática da ironia da série é a crítica aos fármacos prescritos pelos médicos alegando que as drogas não legais fritam menos o cérebro do que os anti-depressivos. O tipo de argumento que seria de esperar de um drogado que não bebe água canalizada ou que não come alface lavada por estranhos. Tudo ali é aleatório e o sentido é sempre encontrado naquilo que menos óbvio parece. Como se não houvesse outro destino senão trilhar os dias sem plano. O Verão passado li um artigo que dizia que os chineses não acharam piada nenhuma à série Desperate Housewives porque tinham dificuldade em compreender aquele humor pois estavam longe de conhecer o vazio burguês. Ora, gostava bem de saber se esta série (Weeds) teve êxito por lá.

January 5th, 2008

“RISE OF THE VIDEOGAME” 50 ANOS DEPOIS!

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Vi recentemente, Rise of the Videogame, um pacote de cinco horas sobre a história dos jogos digitais, uma edição comemorativa dos cinquenta anos de criação deste medium que passou no Discovery Channel. Em 1958 William Higinbotham criou num osciloscópio o seu Tennis For Two, uma simulação de ténis.

Os cinco episódios da série tem um ritmo alucinante e são por vezes um bocado simplistas mas no seu conjunto as inúmeras entrevistas a criadores, jornalistas e directores das mais prestigiadas empresas de entretenimento digital tornam este documentário bastante interessante. Sendo ligeiro na sua estrutura e na apropriação que faz da história do medium transporta o espectador para o interior da cultura de jogos através de alguns depoimentos dos proponentes da revolução do pixel lúdico.

Ali encontramos algumas declarações do lendário Nolan Bushnell, criador da Atari, de Alexey Pajitnov, matemático e criador do Tetris, ouvimos Shigeru Miyamoto, designer do Mário e do jogo The Legend of Zelda, da Nintendo, entre muitos outros designers de jogos. Podemos ainda ouvir algumas considerações de Henry Jenkins, especialista em media do MIT, J. C. Hertz, autora do célebre livro Joystick Nation, e mais um punhado de gente a discursar sobre a revolução pop e as suas implicações culturais e sociais.

A distinção entre os jogos digitais que apelam essencialmente à acção repetitiva e outros mais abstractos (e. g. sims e second life) é ali bem identificada e equacionada. Os brinquedos configurativos parecem de facto ser apreciados por um público mais exigente enquanto que os jogos que apelam à musculatura estão a servir para formar soldados. Neste contexto, num cenário pós 11 de Setembro apresenta-se de forma evidente as promiscuidades existentes entre a indústria de jogos de acção do tipo first person e o exército americano. Sem ser um documentário profundo sobre a complexidade dos artefactos digitais é um bom programa para refrescar a memória em matéria de história. Vale a pena perder cinco horas a ouvir quem merece! Obrigada Ivan.

January 5th, 2008

DR. HOUSE_ACIDEZ E SARCASMO!

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Tenho andado muito alheada da blogoesfera por razões óbvias e que se prendem com a defesa da dissertação Joga Outra Vez, Um conjunto de objectos que nos contam histórias inteligentes. Este Natal, para além da leitura da tese e da preparação do dia D, foi dedicado ao visionamento linear da primeira série do Dr. House. Agora preparo-me para começar a ver a segunda série da saga pois nada melhor do que, numa fase tão complexa como esta, ouvir os conselhos do rabugento Dr. Gregory House (Hugh Laurie). 

Já tinha visto um ou outro episódio solto do Dr. House e logo percebi as potencialidades de me viciar naquela estrutura narrativa e nas suas personagens. Basicamente aquilo é sempre o mesmo, cada episódio começa com a recusa ou a aceitação inequívoca (coisa muito mais rara) do Dr. House em tomar conta de um paciente em estado de vida ou de morte. Quanto mais misteriosa for a maleita do paciente mais probabilidades deste ser visto pelo médico pois o Dr. House é estimulado pelos casos mais complexos. Depois, há sempre um conjunto de diagnósticos que se aproximam mas que levam a equipa de médicos do especialista em diagnósticos, Dra. Cameron, Dr. Chase e Dr. Foreman, a prescrever algumas substâncias que colocam em risco a vida dos doentes. Em simultâneo há normalmente uma investigação, ficha pessoal do doente, que leva a uma ida de um ou dois médicos da equipa ao habitat do doente para assim investigarem potenciais causas (reacções alérgicas, medicamentos que tomam, etc.). Entretanto, e devido a algum medicamento mal administrado, o paciente entra em convulsões e tem que receber mais fármacos para amenizar os sintomas que desenvolveu no hospital.

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No meio deste conjunto de problemas que têm normalmente a ver só com um paciente o Dr. House, muito mal disposto devido às dores que o assolam desde que ficou deficiente de uma perna, tem que ver mais um ou dois doentes por episódio, gerir a relação de amor-ódio com a chefe, orientar a equipa de colegas ao seu serviço e ainda tomar vários Pain Killers (analgésicos) para não sofrer de dores. Nestas atribuladas relações de trabalho surgem diálogos muito bem escritos, de uma ironia e cinismo de assinalar. Com uma estrutura narrativa fixa e invariável de episódio para episódio a série ganha um reconhecimento imediato do espectador e gera nos diálogos, na relação entre personagens e na trama de investigação, uma variação suficiente para simultaneamente gerar identificação e estranheza. Torna-se, quanto a mim, aditivo seguir os movimentos e as considerações do Dr. Gregory House. Simultaneamente cruel e amoroso, andrajoso mas também cheio de charme, especialista em diagnósticos e toxicodependente.

October 15th, 2007

OS TUDORS_FICÇÕES HISTÓRICAS

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A semana passada esteve “no ar” na RTP 1 em versão condensada (dois ou três episódios diários seguidos que acabavam mais ou menos às duas horas da manhã) a série The Tudors (2007) sobre a vida do rei inglês, Henrique VIII. Apenas vi dois destes condensados (mais ou menos seis episódios) mas pude apreciar alguns aspectos interessantes da série, nomeadamente a transição da época cristã para a igreja anglicana, bem como a introdução de um estado parlamentar em detrimento do monárquico por via da intervenção de Thomas Cromwell. A saga, nesta primeira temporada, conta a história das aventuras e desventuras amorosas do rei inglês quando casado com Catarina de Aragão, sobrinha do rei Carlos V de Espanha (o imperador), e desejoso de conseguir o divórcio para se poder deleitar nos braços de Ana Bolena (Anne Boleyn). O rei é, quando a mim, bastante irritante (Jonathan Rhys Meyers) mas não consegui perceber se é porque o actor parece mesmo saído de um filme como a Missão Impossível III (onde por acaso entra), o que se torna pouco credível mas deve contribuir para as vendas da série, ou se apenas tenho de facto antipatia pela personagem histórica. Um mulherengo sem coração mas cheio de conquistas e poderio, hehehe.

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Na série Henrique VIII é apresentado como um louco inconsequente e desvairado, pinga amor, ingénuo e cruel mas cheio de glamour. Um giraço, desportivo e esquio sempre com um certo ar de preocupação. A série tem um guarda-roupa impressionante e curiosamente tive oportunidade de ver a forma imunda como é tratado o rei de Portugal na época da dinastia Tudor. A irmã mais velha de Henrique VIII, a princesa Margaret Tudor, na série, casa em Portugal com o rei (D. Manuel I?), um velho decrépito e nojento, de pés sujos. A corte portuguesa é apresentada como um antro de seres andrajosos, porcos e velhacos. Uma coisa impressionante! É claro que mediante este cenário a bela princesa Margaret Tudor só pode mesmo matar o marido na noite de núpcias e pirar-se com o amante. Coitadinha… já tinham ouvido falar numa princesa inglesa que assassina um rei português? Margaret Tudor casa mesmo com um rei português ou com um rei escocês? D. Manuel I casou com uma inglesa ou com três portuguesas? Mary Tudor, a irmã mais nova de Henrique VIII, é que casa com Charles Brandon, duque de Suffolk depois de ficar viúva de Luís XII..? Eu não sou grande historiadora mas agradecia que alguém me respondesse a estas questões com factos documentados… é que ali ficção e realidade parecem um pouco baralhadas. Como é comum no entretenimento da actualidade misturam-se inúmeras narrativas históricas em prol do efeito produzido no espectador mas há limites…

October 15th, 2007

A EMPRESA / THE OFFICE

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Vi finalmente a primeira série The office da BBC (argumento de Ricky Gervais com Stephen Merchant, 2001/03) e a sua versão americana (adaptada à televisão por Greg Daniels, NBC 2005). Sei que a série já tem algum tempo mas nunca é tarde para falar de um pacote destes em DVD. Confesso que comecei pela versão americana o que talvez tenha retirado alguma surpresa ao original inglês que só posteriormente tive ocasião de ver. De qualquer forma é óbvia a superioridade do humor inglês nestes dois produtos embora o pacote americano também seja cómico. Não posso deixar de me rir do ar balofo e insuflado de David Brent (Ricky Gervais), das ideias espalhafatosas e tolas salpicadas por umas espantosas olheiras de Gareth Keenan (Mackenzie Crook), do aspecto “cãozinho” sem dono de Tim Canterbury (Martin Freeman), entre outras personagens engraçadas que vale a pena conhecer.

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A história não podia ser mais simples: os dias de uma empresa de papel sucedem-se sem nada a assinalar, os trabalhadores morrem de tédio confrontados com um trabalho do qual não gostam e com um patrão que fala por clichés e com excesso de confiança. Racismo, machismo, egoísmo e um rol de preconceitos evidentes são algumas das especialidades dos patrões na série, isto tanto na versão inglesa como na americana. O patrão americano dá pelo nome de Michael Scott e é contracenado por Steve Carrell que ganhou com este papel um Golden Globe. No entanto, o humor de David Brent (Ricky Gervais) é bastante mais negro e subtil do que aquele de Michael Scott. A monotonia do dia-a-dia é recriada de forma a dar uma impressão constante de improvisação embora, como revelem os autores do argumento no DVD, este tenha sido estudado ao milímetro. A equipa de actores acompanha sem dúvida a subtileza do texto e é de realçar a participação de Rainn Wilson no papel de Dwighe Schrute. Lembram-se do Arthur de “A Sete Palmos”? Estou ansiosa por ver mais episódios da saga.

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